Rockaço. As guitarras ácidas de Carlos Panzenhagen e a voz dissolvente de Nenung se encontraram outra vez. A proximidade do bicentenário do nascimento de sir Charles Darwin e a vultosa produção de energia nuclear armazenada pela humanidade nos últimos anos criaram as condições objetivas para o salto evolutivo dessa periplaneta catártica zen apocalíptica. O CD “Volume 10!”, lançado em 2008, soa como se de fato fosse o décimo álbum da banda – que, até então, contava apenas com o LP de estréia, do ano glorioso de 1988.
Enquanto no primeiro disco A Barata Oriental rolava um som consoante à finaleira daquela década – perdida entre virtudes escorregadias e vícios ferrenhos – neste “Volume 10!” a banda se torna atemporal, ao resgatar as raízes do bom e pesado rock’n’roll. Led, Stones e Who – com o legado de Chuck Berry e todo o cipoal de descendentes, como a inglesa The Cult – constituem muito provavelmente o caldo proteico do qual se alimentou o indômito inseto nesses vinte anos de dormência. Veneno rock que alimenta incautos ouvintes.
Rockão. “Sala de espera” (que abre o disco com o fulgor de um arauto e o ruído de mil despertadores valvulados), “Big nose hero” (dedicada a Pete Townshend), “Superior Tribunal Tele-Pizza” (infelizmente, mais atual que nunca) e “Geração saúde” (uma ode em repúdio à “ascensão da decadência”, à “crise da inteligência”) – além destes pujantes petardos profiláticos, destacam-se as baladas “Rumo ao meu sol” (“não vai ser fácil me desapegar / quero é ter tempo pra poder treinar” – apenas com acompanhamento do violão de aço impecavelmente executado por Panzenhagen) e “A mulher que murcha” (“olhar pro presente sem pressa nem medo de saber que vai transformar / e acordar de repente” – com participação de Kid Gileno na percussão, Tiago Heinrich nos teclados e “voz invertida” de Eliane Garcia).
Diferente de Prometeu (baita chave-de-cadeia), Nenung detém a arte de roubar o fogo dos Deuses sem levantar suspeitas. Não há martírio no lirismo trágico do poeta – apenas presença, postura, perseverança e acolhimento da vida em toda sua grandeza. São fagulhas da forja universal, versos como “a voz do velho no seu castelo seguro e sério”, “eu sei que sou livre e preciso reconhecer a imensidão do espaço em que deslizo” e “decidi subir pra ver como o jogo acaba se eu sair daqui”.
Rockeraços. Carlos Panzenhagen (guitarras, violões e backing volcals), Luciano Sapiranga (bateria), Milton Sting (baixo) e Nenung (letras e vozes) são os mesmos quatro piazotes que, aquartelados em Novo Hamburgo, sacudiram a cena roqueira da Capital, há duas décadas. A audição de “Volume 10!” prova, enfim, que o longo silêncio valeu a pena. Considerando o que foram os anos 90 – socioeconômica e musicalmente –, muitas bandas oitentistas deveriam ter seguido o exemplo da Barata e deixado assentar a poeira do fim do século, antes de dar a cara ao tapa novamente. Quanto sofrimento poderia ter sido evitado.
Empregada no breve parágrafo de apresentação da banda, que recebi como ponto de partida para este texto, o termo “multi-instrumentista”, de fato, não me agrada. Embora seja um aspecto positivo que, quase que por dedução, quer inferir qualidade ao músico, para mim esteve sempre associado àquele carinha arroz-de-festa que toca o Brasileirinho em todos os instrumentos da casa, mas que, no fundo, nunca sentou e fez uma música legal do início ao fim. No entanto, não é preciso ouvir muito para saber que o pernambucano Fapo não pertence a essa trupe de quem toca o Toquinho à exaustão no ouvido da vó.
À primeira vista, escrever sobre Fapo e os Humanóides é daqueles pratos cheios para resenhistas que perdem tempo e páginas explicando o uso e a história inusitada de alguns instrumentos musicais poucos comuns em discos atuais. Estão todos lá, inclusive a guitarrinha havaiana de tocar no colo, o ukulele, e o banjo amigo. Esta obviedade analítica, contudo, eu vou deixar lá pro seu Google. Porque o bom mesmo de Fapo e os Humanóides está na música, na boa música, claro.
Para um gaúcho que sou, é legítimo o bom sentimento de escutar um som que em quase nada remete ao que se faz aqui, que bebe de outras fontes culturais, sem perder o balanço e a malícia. Bom de se ouvir, o disco ganha destaque nos arranjos de músicas como “Gato de Botas”, “Naquele Elevador” e a quase balada “Nove de Outubro”. Já “Luca” prova que o idioma favorece e muito as bandas estrangeiras, uma vez que, de resto, pouco devemos. A blueseira “Minha brisa e seus bordões” surge inusitada e ao mesmo tempo extremamente natural, com direito ainda a levada de slide. Faz sentido. Se os negros do Mississipi faziam, os capangas de Lampião, no mínimo, também.
Wha-wha e slide juntos? Bom, “Insônia” mostra que a mistura funciona, em um riff animado na música mais acelerada até aqui. O Bom do disco é sua homogeneidade. “Nitroglicerina” e uma faixa instrumental escondida são exceções – de qualidade, inclusive. Afinal, o melhor está sempre nos arranjos e nos vocais de Fapo. Palmas ainda para as linhas de baixo, sempre timbradas e abafadas a la McCartney. Da mesma forma, algumas poucas guitarras invertidas que, quando bem usadas, expressam como ninguém aquilo que nem palavras ou notas musicais o fazem. E, quem sabe, nem mesmo precisem. A boa música, antes e sempre, sempre se virou muito bem sozinha.
Finalmente um disco que faz jus ao jubiloso adjetivo que a Capital carrega em seu nome. Dos versos às melodias, tudo em Tridimensional é expansivo e leve. Pura exaltação da alegria de viver neste lugar e neste tempo.
Mesmo quando fala em abandono e solidão, como na música A flor da vida (com primoroso arranjo de piano, a cargo de Michel Dorfman), não há mágoa nem lamento na interpretação de Gelson Oliveira. Não há espaço para a melancolia e sim, um riso que se desprende, sustentando, em plena geada gaúcha, uma chama acesa no peito.
No reggae abolerado Memórias de um cantador (que encerra o CD e durante algum tempo foi cotado como provável faixa-título), o compositor revela índole cosmopolita e expressa gratidão à sua cidade-mãe: Porto Alegre / Que me fez / E sempre me ensinou / A sobreviver / Em qualquer canto / Do planeta. De fato, as temáticas das canções, assim como os arranjos instrumentais, levam para muito além dos limites do perímetro urbano. O disco lançado no dia 18 de agosto, no Teatro de Câmara Túlio Piva, soa como um bálsamo universal para alma e ouvidos. Golaço de Gelson e do time que o acompanha.
O destaque é Canção do pescador. Sobre consistente linha de baixo de Lucas Esvael e saborosa percussão de Edinho Espíndola, Gelson rega a harmonia com os acordes de seu violão para cantar a vida do homem que busca nas águas seu sustento. É lindo como o cantor consegue, por meio do recurso de sobreposição de vozes, fazer com que a palavra “vida” se abra como imensa rede jogada sobre o azul. E enquanto avança a embarcação, o sax soprano de Pedro Figueiredo brilha como raios de sol sobre o oceano. Tela pintada sobre o fundo aquarelado dos teclados de Luiz Mauro Filho, com pinceladas de guitarra a cargo do próprio Gelson, Canção do pescador é um quadro para ser admirado com o sexto sentido, de olhos fechados, ad infinitum.
Embora sempre tenha sido excelente cantor, Gelson demonstra estar em sua melhor forma. Na balada Que bom ver, um dos grandes momentos do disco, a textura de sua voz, forte e macia, parece deslizar, flutuando sobre a canção. Como leve veludo, afaga nossos espíritos habituados à aspereza da sonoridade urbana. Embora absolutamente original, o esmero na construção da linha melódica lembra alguns trabalhos de Carlinhos Hartlieb, que tinha o precioso dom de evitar que o percurso de seus fraseados levassem ao lugar comum. Como ele, Gelson semeia notas inesperadas pelo caminho – sem perder, no entanto, o sal da simplicidade.
Outro ponto alto do disco, as letras das canções são prova da maturidade lírica alcançada pelo compositor. Os 10 temas que compõem a obra são ricos em achados sonoros (Confie quando juro / Se juro quando beijo), jogos de palavras (Então eu vou sába-do-mingo / Chuva que cai molhando a boa / Terra mãe amanhã) e mensagens inspiradoras (O amor é maravilha / Que o divino criou / E a gente deve merecer / este presente de quem / Nunca nos deixou).
Ser talentoso, por si só, já é um privilégio – mas não basta. Gelson é acima de tudo sábio – respeita o ritmo, o fluir orgânico da existência, e sabe que não se faz um disco como este a cada ano. Paciente bruxo, deixa seu turbilhão criativo alcançar o ponto, como em um caldeirão de ferro ardendo em fogo brando. Assim como acaba de tirar da forja este Tridimensional, seu último trabalho solo data de 1997 e, não à toa, se intitula Tempo ao Tempo.
A sugestão é saborear este disco verso a verso. E ir aos shows. Beber dessa sagrada alegria que o poeta soube traduzir e ofertar. Definitivamente, alegre é o porto que tem entre seus cantores alguém como Gelson Oliveira.
Levitan e Os Tripulantes – Projeto LP (Longa Peregrinação)
O Projeto LP, de Cláudio Levitan, é o que há de mais adolescente na cena musical gaúcha e, quiçá, do mundo. O arqui-artista simplesmente realizou a quimera mais querida de meia humanidade. Vive o mais autêntico viço juvenil com o respaldo de sua sortida experiência. Escolado capitão com fúria colegial.
Ele conseguiu. Alguém mais? Caetano tentou. Há quem diga que não obteve êxito. Mas tentou. Empreendeu a busca. E sejamos sinceros: somos todos tentantes. Levitan, por sua vez, é nobre auferidor de benesses sonoras.
Acompanhado de seus 3 Pulantes Tripulantes Levitantes Alexandre Kumpinski (guitarra), Carina Levitan (bateria e vocais) e Leonardo Braun (baixo), Don Cláudio resgata antigas composições, consagradas em outras consagradas vozes, como Tangos e Tragédias, Nei Lisboa e Musical Saracura, e tira do alforge outros embriagantes ramalhetes sonoros. Ao termo e ao remate, erige as fundações de uma nova música, anunciada como P.R.A. (Popular de Raízes Aéreas). Nada mais jovem do que a concepção de um mito fundante.
LP (Longa Peregrinação) é, na verdade, o relançamento conjunto dos dois “compactos triplos” (CDs de seis músicas cada) anteriormente lançados com os nomes de com.pacto.triplo e o outro lado b, que, permutando por partículas, corresponderiam agora aos lados A e B do presente LP, que (como os gudenolds longs plays) traz 12 faixas, muito embora divididas em dois CDs. Parece complicado? É da natureza dos resenhistas embananarem-se ante a lógica adolescente.
Recobrando o rumo e considerando que as primeiras seis músicas foram resenhadas na primeira edição da revista digital ZoomRS, pelo nosso humanitário editor, Carlos Hahn (leia a resenha do CD com.pacto.triplo), vamos nos atar à outra meia dúzia e ver aonde nos leva.
Se você me amasse
Embora mais psicodélico do que punk, o tema de abertura – que corrobora a tese do encontro da fonte da juventude, sustentada nesta resenha – instiga no ouvinte, ao soar do surdo e ao frenesi do riff de guitarra, o ímpeto de poguear às ganhas, enquanto Levitan jura pelo fio grisalho do cavanhaque que “se você me amasse eu viveria bem feliz (...) viveria o tempo todo a cantar, cantar, dançar, dançar, pular, pular sobre ti”.
Sifo
Belíssima elíptica hipnótica balada. Todo o talento autoral de Kumpinski refletido nos arranjos de guitarra. “Você sifo. Se foi pra não mais voltar. Então eu mifo. Me informei se você vinha”, canta Cláudio Tripulan, fazendo estripulias com a lusa maquinaria fonética. “Tentei tifo. Te forçar a vir comigo. Mas isso nusfo. Nos fundiu a cuca e o amor”, arremata.
Ana Cristina
A canção imortalizada nas vozes de Nico Nicolaiesvki (Maestro Pletskaya ) e Hique Gómez (Kraunus Sang), no espetáculo Tangos e Tragédias, recebe nova roupagem. Pena que o agradabilíssimo xote valseado inicial (com guitarrinhas burlescas de Kumpinski) passado 1 minuto e 14 segundos se transmute em pancadaria, insinuando novo convite ao pogo. Mas os jovens sempre tem razão. Os resenhistas, raramente.
Amelita
Engendrando circunavegações em torno da massa encefálica, a psicodélica canção, rica em referências regionais, com trombone profissa de Julio Rizzo e vocais femininos de Ju Dariano, Bella Stone e Débora Dreyer, remete às melhores produções do maestro Rogério Duprat junto aos Mutantes. Excelência tropicalista.
Divina comédia
Pelos infernais metais incandescentes dos pratos percutidos por Karina Levitan, segurem esse homem. Cláudio enlouqueceu. Impingido pelo vertiginoso violino de Hique Gomez, o poeta avança nas alturas do limbo profundo para resgatar a musa morta Beatriz. “Nada se opõe a essa nossa paixão”, afirma, épico, obstinado.
Bólido cósmico Opus B Espécie de poslúdio à faixa anterior – bolhas sintetizadas, meteoritos psíquicos, Richard Wagner pós-moderno. Se fosse um filme, seria a trilha perfeita para a leitura dos créditos. Mas como este LP é um CD (ou melhor, dois), o som é pra viajar mesmo. Acompanhado do que melhor faça a cabeça do ouvinte.
“Sem pressa” abre O tempo é Quando eu Quero como toda música n°1 de um trabalho deveria abrir um disco de rock: com uma combinação simples e certeira de bateria e riff de guitarra com cordas abertas. Não tem como errar. É de cara a melhor canção do álbum.
Tarefa árdua de nove entre 10 bandas que possuem dois ou mais guitarristas, a junção das 12 cordas da dupla Ricardo Sabbadini e Gustavo Chaise – que também se revezam nos vocais – é feita de forma honesta e funcional, sempre tentando fugir do clichê uníssono e óbvio empregado por tantos.
A alternância de vocalista já se dá na seqüência. “Uma história pra contar” é uma canção mais fraca e menos roqueira que “Sem Pressa”, e que revela ainda uma sonoridade mais juvenil da voz de Chaise. O carisma da letra, no entanto, não deixa a peteca cair. O refrão grudento também faz com que a música não passe em branco.
Bem mais pesada que as demais, “Outros Versos” é meio indigesta e não chama muito a atenção. “Richard Gere” – a exemplo de “Dia perfeito”, música do primeiro álbum da Cachorro Grande – cumpre o protocolo de música que destoa propositalmente das demais em andamento e estrutura, evocando um clima meio clique de mesa de bar. O solo de guitarra em tom desleixado vale muito à pena e rouba a cena. Parece o Zé da Folha com slide e amplificador. E isso é um baita elogio.
“Bad Love” parece mais com a Severo que se espera a partir das músicas 1 e 2 e, apesar de ser menos pulsante e agitada, tem méritos em revelar uma banda que bebe mais de Stones que de Strokes, apesar da grafia similar e enganosa das duas bandas e do uso e abuso de telecasters estridentes e oportunas.
Falando nisso, outro ponto alto do grupo e que confere unidade ao trabalho é o baixista Edu Meireles que, mesmo sem inventar muitas firulas para competir com as guitarras, consegue impor um groove a mais em uma banda, à primeira vista, apenas de rock. De cara, até minha avó Maria perceberia, vê-se que as baquetas de Reynaldo Migliavacca - o rei – estão em boas mãos.
À exceção de “Sem Pressa”, tem-se a impressão de que a Severo em Marcha guardou as melhores cartas para o término do disco. E acerta bonito no diálogo das guitarras de “Você pode se perder por aí”. Enfim, a veia Zeppeliniana aparece de forma mais evidente. “Quem será” mostra-se boa música com direito a um final inusitado e “O tempo é quando eu quero” tem seu quê de malandragem.
Integrante das bandas gaúchas que gozam da possibilidade palpável de gravações de muito boa qualidade, a Severo em Marcha dá um bom e importante primeiro passo sem tremer as pernas. Como fala o principal verso da canção de abertura do disco (“....eu me atiro nos braços da sorte, mas sem pressa de acertar”), se agora a Severo não o faz na mosca, mostra ao menos certeza de que, está no caminho do alvo.
No final da década de 70, Noel Guarany havia se tornado porta-voz da juventude gaúcha que sonhava com o retorno da democracia e lutava pelo fim da ditadura. Em 1980, quando apesar da abertura "lenta e gradual" ainda era comum bancas de jornais virarem escombros em vôos repentinos, o cantautor missioneiro se apresentou no Cine Glória de Santa Maria para um auditório apinhado de estudantes universitários. Mais do que shows propriamente ditos, as apresentações de Noel eram verdadeiras palestras cantadas, nas quais compartilhava sua filosofia lírica, engajada e telúrica.
Lançado em 2003, cinco anos após a sua morte, o CD Destino Missioneiro (Show Inédito) é o registro de um dos maiores compositores do Rio Grande do Sul em um de seus melhores momentos. Ao longo de quase 70 minutos, Noel Guarany conversa com o público, falando de suas vivências, confessando angústias, e interpreta temas capitais de sua obra, que àquela altura contava com seis LPs e um compacto gravados.
Noel inicia a função com De pulperias, canção que dá título ao seu então mais recente trabalho, de 1979, e funciona como uma espécie de carta de apresentação. Com os versos Um payador que se preza / Mesmo rodando não cai / Recorre a vida cantando / Aos pés do Eterno Pai / E depois volta de novo / Cantar pra o povo e se vai, o menino nascido em Bossoroca (então distrito de São Luiz Gonzaga) saúda a platéia e diz a quê veio:
Jamais me perdi no trilho Quando canto opinando Sempre falei as verdades A quem estiver escutando Humilde pra um peão d’estância E touro para um contestando
O auditório, até então em respeitoso silêncio, desaba em aplausos e silvos, dando início ao diálogo repleto de empatia que se manterá por todo o espetáculo. Agradecendo a acolhida e reafirmando quem de fato é – para que não se faça confusão – Noel deixa claro: “Eu não sou cantor mitológico, eu existo. Eu vivo pelas pulperias. Eu não canto no Maracanãzinho por 50 milhões de dólares. Me sobra o puchero e por aí vou andando. Com minhas opiniões, claro”.
Aproveitando a proximidade do Dia das Mães, Noel dedica à sua e a todas as outras a belíssima canção de Orozco Índia cruda (que sairia no LP Alma, Garra e Melodia, ainda naquele ano): Yo nací en una manguera / De palo a pique cercada / En una fresca madrugada / Al llegar la primavera / Mi madre fue una índia cruda / Que usaba bincha en las clinas / La más gaucha de las chinas / Amarga como la ruda.
Para dar início “a um bate-papo mais alegre” e “baixar uns eflúvios melhores”, Noel anuncia “o registro folclórico mais extraordinário que eu conheço”. Charlando un ratito nada más com seu violão, introduz o chamamé tangueado de Mario Milan Medina En el rancho y la cambicha – a história do paisano que muy pachola se refestela em uma bailanta com as mais guapas muchachas.
Un frasco de água florida Para echar-le la guaina Y un paquete de pastillas Que a todas convidaré Y esta noche de alegría Con la dama más mejor En el rancho y la cambicha Al trotecito tanguearé
Entre o ruído das palmas, ouve-se gritar nomes de canções. O compositor apascenta: “tudo vai sair”. De repente, um embandeirado se entusiasma e pede “qualquer uma”. Noel lasca: “qualquer uma não serve, tem que passar pela censura”. Gargalhadas inundam o Cine Glória, que desaba em aclamação.
Ainda sob a cachoeira de aplausos, inicia Meu rancho, parceria com Jayme Caetano Braum, do LP independente Payador, Pampa e Guitarra, lançado no Brasil e na Argentina em 1976. Essa dupla de bruxos, que fazia feitiço em forma de poesia, de tanto “beber mensagens que o vento traz nas aragens” acabou por traçar predições – involuntárias, é certo, como costumam ser as mais precisas professias.
Não há descrição mais exata de seus últimos anos de vida (auto-exilado em um sobrado da Vila Santos, em Santa Maria – acometido por uma doença degenerativa) do que esta estrofe de Meu rancho: Depois de andar gauderiando / Por muita querência estranha / Hoje vivo no meu rancho / Na humildade da campanha / Junto à chinoca querida / E ao cusco que me acompanha. Irmãos de “pena e arado” (como diria Sérgio Metz), Jayme e Noel souberam traduzir o que há de mais simples e valioso. Seus versos são instantâneos que não desbotam – imagens atávicas, tatuadas no imaginário.
É meu vizinho de porta Um casal de quero-quero Por isso embora índio pobre Bem rico me considero Tendo china, pingo e cusco No mundo nada mais quero
Antes de cantar a música que talvez seja o mais fiel retrato de seu ideário bagual (Filosofia de gaudério, gravada originalmente em seu disco de estréia, Legendas Missioneiras, de 1971, e regravada em 1975, no álbum Sem Fronteiras) Noel comenta ter sido ultimamente acusado de elitista, por andar “escrevendo uma realidade nua e crua”. Em verdade, incomoda aos oligarcas que se fale ao povo com respeito, espalhando cultura e partilhando informações relevantes. “Claro que vai doer em alguém”, acrescenta o payador maldito, “mas vai servir de alento para muitas almas sofredoras que como eu andam por aí vendo essas barbaridades”.
E como não era de cutucar e esconder a mão, Noel aproveita o ensejo para atacar a Ordem dos Músicos do Brasil, instituição com a qual se desentendeu repetidas vezes ao longo de sua carreira. Conta que, certa feita, se preparava para se apresentar em um clube, quando surgiu um delegado da Ordem, acompanhado de dois brigadianos, pedindo para ver seus documentos. Contrariado, Noel respondeu aos policiais que, por conhecer seus direitos, também conhecia os deles e imediatamente os mostraria, mas não para “aquele bagaceira”. Para encurtar o causo, quiseram levá-lo à delegacia e ele se negou. “Eu tava prendendo fogo, missioneiro como eu sou, né? E, menos mal que saí bem”, lembra Noel, aquecendo o dedilhado da milonga autobiográfica Filosofia de gaudério.
Pedindo licença para cantar junto ao violão em seu estilo missioneiro um “lamento bem campeiro”, afirma que nasceu cantor porque gaúcho, “que em toda pampa existe, é o homem que canta triste”. E defende sua “chucra linguagem” por ser a tradução da sua realidade de “índio sul-americano”.
Eu aprendi cantar versos Em faculdade campeira Em reuniões galponeiras E em bolicho de campanha Tomando um trago de canha Para afinar a garganta Pois necessita quem canta A inteligência agitada Se acaso levar rodada Dá um grito e se levanta
No disco de 1971, lançado pela gravadora RCA, Noel gravara a milonga com apenas seis estrofes (possivelmente, para não ultrapassar o tempo radiofônico regulamentar de quatro minutos). Em 1975, gravando pela EMI/Odeon, o poeta se redime da tesourada comercial e inclui as duas estrofes restantes, nas quais fala de suas andanças pela América Latina e afirma não se importar com aqueles que criticam seu “viver teatino”, pois, segundo ele, seu destino é trançado conforme os mandos da lei Divina – “são ordens que vêm de cima”. Com a música convertida em um de seus grandes sucessos, Noel pôde desdenhar da lógica obtusa do mercado e gravá-la finalmente na versão integral, de quase seis minutos. Não à toa, sua relação com as gravadoras não foi das mais serenas – sua discografia completa inclui nove discos, lançados por sete empresas diferentes.
Meus versos cheirando a campo Faz-me prever sonhador: Que se eu nasci pra cantor Eu hei de morrer cantando
Os versos finais da canção, ouvidos passados quase 30 anos, dão nó na garganta e põem pedras no peito. Por trágica ironia, Noel não viu cumprir-se a profecia da qual tanto se orgulhava (“eu mesmo destinei o meu fim”, diz ele, a certa altura do show). Sofrendo de uma ataxia degenerativa do cérebro, que comprometeu suas habilidades motoras e o fazia esquecer as letras das músicas, o empertigado violeiro se viu impedido de seguir tocando e cantando em seus últimos anos de vida.
No calor dos aplausos, consciente da força mobilizadora do público que tem à sua frente, Noel cita a hoje histórica greve do ABC paulista, que desmascarou a tal “abertura”, colocando a sociedade civil brasileira em pé de guerra. Ao longo de 41 dias, o movimento dos metalúrgicos se espalhou por outras categorias, paralisando centenas de milhares de trabalhadores em todo o país. Somente em Minas Gerias, cerca de 200 mil professores e trabalhadores do ensino aderiram ao movimento. Cabe lembrar que, naqueles dias, foi levado à prisão o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. No 1º de maio, conforme jornais da época, cem mil pessoas marcham em São Bernardo obrigando a recuar o cordão de oito mil policiais fortemente armados que tentavam impedir a valorosa demonstração do poder popular.
Nesse contexto, Noel propõe à juventude presente: “se vocês quiserem fazer um movimento para arrecadar fundos para os grevistas de São Paulo, este bugre missioneiro tá aqui a hora que vocês quiserem. Nós vamos conseguir dinheiro para eles, nós damos um jeito”. De fato, inúmeras organizações comunitárias e demais sindicatos ajudaram a captar fundos para a manutenção da greve. No Rio de janeiro, por exemplo, estudantes universitários passavam nas salas de aula com sacolinhas onde se lia “Fundo de Greve dos Metalúrgicos do ABC”.
Para ilustrar o sentimento de solidariedade, Noel recita Atahualpa Yupanqui: “la arena es un puñadito, pero hay montañas de arena”. Por considerar, entretanto, que o clima estava ficando pesado demais, puxa da guaiaca o Bochincho, de Jayme Caetano Braun, originalmente gravado no disco Sem Fronteiras, de 1975. Declamando o causo, que narra as proezas de um valente bochincheiro, Noel faz jorrar gargalhadas de todos os cantos do Cine Glória.
Quando dançava com uma “china lindaça / morena de toda crina / dessas da venta brazina / com cheiro de lixiguana / que quando ergue uma pestana / até a noite se ilumina”, o personagem descobre que a “pinguancha” era prenda do dono do bochincho, o qual se vem de adaga na mão, “que se me pega me estraga / chegou a levantar um cisco / mas não é à toa chomisco / que sou de São Luiz Gonzaga”. Ágil, o vivente revida com seu “marca touro, num medonho buenas tarde” e vê brotar o sangue no pescoço do adversário. “Desde o beiço até a orelha / ficou relampeando o osso.” Perseguido por todos, o bochincheiro percebe, no meio do tiroteiro, que o esperam nos fundos e, cheio de galhardia, sai altaneiro pela porta da frente.
E a china nunca mais vi No meu gauderiar andejo Somente em sonhos a vejo Em bárbaro frenesi Talvez ande por aí Nos rodeios das alçadas Ou talvez nas madrugadas Seja uma estrela chirua Dessas que se banha nua No espelho das aguadas
Noel emenda Romance do petiço Mitay, do LP Destino Missioneiro, de 1973, e a belíssima polca missioneira Versus, do disco Noel Guarany canta Aureliano de Figueiredo Pinto, de 1977, (embora Versus seja composta em parceria com Rubens Dario Soares) e retorna ao tema que parece lhe trazer tanto desgosto: “em parte a gente fica magoado por causa dessas acusações, vulgares, inclusive, porque não tem nada de elitismo. Quem canta música da terra não é elitista, quem canta música da terra é nacionalista”.
Antes de cantar um de seus maiores sucessos – Na baixada do Manduca, do disco Payador, Pampa e Guitarra, de 1976 – homenageia seus comparsas Pedro Ortaça e Cenair Maicá: “tomara que cantem sempre a nossa terra, terra essa da qual nasceu o gaúcho da seguinte forma: chegou a Companhia de Jesus para catequisar e prenhar índias”.
A música seguinte, Romance do pala velho, do citado disco de 1971, segue a mesma linha da clássica O roubo da gaita velha, de Telmo de Lima Freitas. Em ambos os casos, o personagem narrador tem roubado algo que lhe é muito caro, parte de sua alma. Em uma espécie de anúncio de Achados e Perdidos, canta as qualidades do objeto furtado, pedindo que este lhe seja devolvido. A crônica de Noel, entretanto, em que o sujeito perde seu pala em uma ida à cidade (a “maldita perdição”), remete ao fenômeno do êxodo rural, em que o homem vindo do campo acaba por perder na urbe, um a um, seus mais preciosos valores.
Neste mundo todos morrem Da morte ninguém atalha Me entreguem meu pala velho Pra eu levar de mortalha
Payador, pampa e guitarra, que dá título ao LP de 1976, composta em parceria com Jayme Caetano Braum, se equilibra na linha tênue entre o canto e a declamação, para fazer a elegia da santíssima trindade – o homem, sua terra e seu instrumento de trabalho.
Payador – alma e garganta Emoção e sentimento Melodioso sentimento Que da terra se levanta (...) Pampa – matambre esverdeado Dos costilhares do Prata Que se agranda e se dilata De horizontes estaqueados (...) Guitarra – china delgada Que um dia chegou da Ibéria Para tornar-se gaudéria Da pampa, venta rasgada
A mensagem que fica, pairando como um clamor terrunho, é de que haja paz para o payador, que a liberdade seja semeada na pampa e que a guitarra, por fim, possa espalhar o amor.
Depois de cantar louvores ao seu amado rio Uruguay, em Rio de los pájaros, de Aníbal Sampayo, gravada no disco De Pulperias, de 1979, o poeta se despede, tratando de mais uma vez deixar claro a seu público: “eu não sou artista, eu sou ali da Bossoroca, vivo pescando por ai e tal”.
Fechando o CD, Noel canta à unidade da pátria sul-americana, razão de seu ofício, na Milonga de tres banderas, parceria com Jayme Caetano Braum, registrada no LP de 1976. À sua “vieja milonga pampeana / hija de llanos y vientos”, que tem por venturosa sina apagar todas as fornteiras, canta Noel: “tus mensajes galponeras / trenzarán en la oración / al pié del mismo fogón / los gaúchos de tres banderas”.
Mañana por las praderas Acaso el sol gaucho se ponga El viento pampa rezonga Com sus guitarras de estrellas Haciendo pátria com ellas Pues, donde hay pátria, hay milonga
Não são palavras ocas – é concenso: depois de Noel Guarany não houve outro –guerreiro cantador de guitarra e língua afiadas. Às novas gerações, este disco – registro de um momento sublime, que o tempo agranda e jamais borra – fica qual mapa do tesouro, guia para o labirinto, um manual prático de introdução ao canto e ao pensamento desse menestrel missioneiro, morto em 6 de outubro de 1998.
O disco da banda Plano Z é obra para ser apreciada zilhões de vezes. Tamanha a riqueza de detalhes. Da lapidação autoral à arte gráfica do encarte, o álbum resulta numa espécie de antítese da mítica Caixa de Pandora. Tudo que exala dali é talento. Letras espirituosas, inteligentes sem serem intelectualóides, e harmonias bem resolvidas, coroadas de preciosas melodias.
Mesmo que a banda, formada em 2001, no município de Igrejinha, ainda não tenha conquistado o merecido espaço na atual cena gaúcha, esse disco de estréia é a prova incontestável de seu potencial. Mais que isso, um registro para ser catalogado entre os grandes títulos da discografia do Estado.
Com certa obsessão pela passagem do tempo, o compositor, vocalista, guitarrista e tecladista Thiago Heinrich produziu uma poética ao mesmo tempo profunda e descomplicada. Poucos artistas têm conseguido traduzir com semelhante clareza o que há de perene na efemeridade do dia-a-dia nos centros urbanos: os zilhões de pequenos e grandes dramas individuais que, em seu conjunto, compõem a experiência humana neste planeta aqui e agora.
nos rostos que se vão me faça acrescentar uma memória uma ruga uma vida inteira
(Passar – Thiago Heinrich e Roger Stein)
Responsável pela arte do encarte, o artista plástico Marcos Schmidt demonstra inventividade ao ilustrar a temática. Um recorte de fachadas de prédios e casas de uma rua, com todas as distorções e imperfeições da percepção de alguém que, de passagem, não dispusesse de tempo suficiente para esquadrinhar a cena, deixando que a imaginação preencha as lacunas abertas pela superficialidade do olhar.
Nessas paredes da memória, aspirando à posteridade, estão datilografadas as letras das músicas, lado a lado a pichações com referências à canção Dia 36, dos Mutantes, ao livro Cantares de Perda e Predileção, de Hilda Hilst, e a cartazes com os Freak Brothers, de Gilbert Shelton, o Big Brother do livro 1984, de George Orwell, o quadro O Grito, de Edward Munch, entre outras minúcias. Tudo sempre em alusão à passagem do tempo na paisagem urbana, sob efeito da perplexidade interna e do extremo controle externo.
segui tudo o que se diz nunca fui o que sempre quis
como andar como parar o que vestir o que sonhar a tv e a internet tudo pra me controlar
(1984 – Thiago Heinrich e Roger Stein)
Mas não pense que há desespero ou melancolia na música da Plano Z. Pelo contrário, o vigor e a saúde existencial dão o tom da obra. O bom humor e a capacidade de superação parecem suplantar todas as vicissitudes inerentes à vida mundana.
se a impermanência aponta o que é mais importante brindemos à morte neste exato instante se a tua fraqueza mostra os limites da tua sorte esquece de tudo e aprende a ser forte
o que não te mata vem fortalecer
(Remédio amargo – Thiago Heinrich e Nenung)
A mesma vitalidade demonstrada no lirismo de Heinrich, está presente nas guitarras de Roger Stein e na cozinha de Lázaro Rodinelly (bateria) e Kaka Fleck (baixo). É Beatles, The Who, Pearl Jam e Oasis, com o melhor do rock gaúcho de todos os tempos. Sonzera para ouvir dançando, ainda que não seja pop e fosse de enorme valia que se tornasse popular.
Gravado na garagem da casa de Heinrich, entre agosto de 2006 e setembro de 2007, o disco também se presta à horizontalidade de um confortável sofá, de olhos fechados e fones de ouvido. A mixagem minuciosa, também a cargo do compositor, reservou aos ouvintes inúmeras surpresas, espalhadas pelo vasto panorama estereofônico. Arte que os Beatles desenvolveram como poucos e que, desde os anos 80, foi sendo deixada de lado.
Enfim, existem zilhões de motivos para ouvir Plano Z. Descubra o seu.
O primeiro som é de uma viola caipira, seguida por uma rabeca. Música de Elomar de Figueira Mello. O clima é árido e o sotaque nordestino. A voz, forte e saborosa – cantando os desejos de uma mulher nordestina –, é de uma gaúcha. Dois minutos depois, um fado do Madredeus. Em seguida, um choro-canção do Arthur de Faria – que musicou poesia comovente de Marcelo Sandman.
É com esse pequeno desfile de tremendo bom gosto que Vanessa Longoni começa o seu disco recém saído do forno, A mulher de Oslo. O nome já soa familiar a muita gente, creio. E parece que o CD tem mesmo a intenção de sintetizar o premiado espetáculo da Vanessa: contar histórias através de canções. E logo na quarta canção, um tango de Goran Bregovic, percebo que não há mais nada a fazer, se não sentar, fechar os olhos e ouvir o que mais aquelas várias mulheres contidas numa só têm pra me dizer.
Tudo começou com um pequeno conto do uruguaio Eduardo Galeano, que retrata uma cantora em Oslo contando e cantando seus mais comoventes sentimentos, tirados de papeizinhos que estão em sua saia. Partindo daí, Vanessa montou o show 'A mulher de Oslo' e percorreu, durante dois anos, o Estado inteiro, lotando teatros e arrebatando o Prêmio Açorianos de melhor espetáculo de 2006, até consolidar a idéia com o disco.
Recheado de sofisticação, o trabalho de estréia da Vanessa é um carrossel de composições que nos faz dar a volta ao globo terrestre. Vai-se do sertão brasileiro aos Bálcãs europeus em um instante.
Claro que esse mosaico auditivo não se forma apenas com as interpretações certeiras da cantora. A banda base (Arthur de Faria – também produtor musical do disco –, Angelo Primon, Clóvis Boca e Diego Silveira) é ingrediente fundamental na construção desse caleidoscópio de diferentes sotaques.
E as participações especiais são o recheio do bolo norueguês: tem o pernambucano Siba, os porteños Martín Sued e Pablo Jivostovichii (da Orquesta Típica Fernández Fierro), o genial pianista uruguaio Hugo Fattoruso, o Seu Conjunto do Arthur, Marcelo Delacroix, Hique Gomez... Tudo soando regionalmente universal.
O que mais empolga é que não estamos apenas diante de um disco bem acabado e de qualidade incontestável. Mais do que isso. A sensação é de que, a cada audição, as músicas melhoram, tomam formas e adquirem nuances não compreendidas antes, trazendo à tona imagens inconscientemente guardadas em nosso mais profundo universo particular.
No fim, A mulher de Oslo deixa algo no ar: não são histórias de mulheres de todos os cantos, que cantam seus mundos. É a história de um mundo encantador, cantado com uma delicadeza tocante e composta por sons que ecoam daqui, dali, de qualquer lugar.
A vinheta que abre e encerra o disco Percussìvé – ou a prece do louva-a-deus é a cena sonora ideal para representar o conceito da obra: em meio a ruídos de grandes cidades, roncos de motores e tilintar de metais, misturados a cantos de pássaros e o farfalhar de uma floresta, um índio caingangue enraíza sua reza ritmada, espalhando pelo breu a proteção dos ancestrais.
Contraste de culturas e simultaneidade de ambientes – dois padrões que perpassam as 16 músicas do CD. Gravado entre agosto de 2003 e maio de 2004, o disco resgata e recria ritmos basilares da música brasileira para embalar letras impregnadas de imagens e poética artesanal.
No maculelê Percussìvé, primeira música do disco, Felipe Azevedo transforma seu violão num berimbau de seis cordas. Contraponteando em desafios de primas e bordões, o compositor dispensa acompanhamentos percussivos – sua batida é uma máquina orgânica zabumbando rituais.
Na sibilante intervenção da flauta de Daniel Zanotelli e no ronronar do violoncelo de Mônica Lima, o recurso de sobreposição de linhas melódicas é utilizado como fator de complexificação sonora, ora inebriando a mente, ora inquietando o espírito.
A mão que afaga / apedreja devagar / a mesma corda / o tempo inteiro quer pulsar / a cor do mangue / percussìvé, degradê / lubrificada com azeite de dendê – canta o compositor, anunciando que veio para guerrear com armas herdadas do futuro, implacáveis e sutis como o amor e a sabedoria.
Em Vida sempre exata, um carimbó-ijexá que soa como um rap de paradoxal riqueza melódica, Felipe esboça flashes do cotidiano urbano. A perplexidade – estado de espírito habitual do homem pós-moderno – se revela no diálogo aflito dos violinos de Arthur Barbosa e Márcio Ceconello e em versos como A nossa correria / mastiga mesmo os pés / a gente se consome / em picles, em filés / em tiros abortivos / espíritos sem luz / e a vida é sempre exata / no som do viaduto.
A marcha-rancho Enredo íntimo, a modinha Tema para um compasso de espera (gravada nos dois discos anteriores do compositor e agora interpretada por Mônica Salmaso) e a valsa Antes dos 30 (letra de Marco de Menezes) têm em comum confirmar a categoria canção como dom superior da nação brasileira. Seguindo a vereda aberta por mestres como Tom Jobim e Chico Buarque, Felipe nos brinda com três temas dignos de brilhar entre pérolas do cancioneiro nacional – sempre fiel a seu conceito de explorar as possibilidades do contraponto, seja por meio de violoncelos, clarinetes e oboés (Enredo íntimo) ou de seu próprio violão (caso das outras duas).
As instrumentais Quebradinho e Choro de dedos são chorinhos estilizados nos quais o ouvinte é convidado a apreciar toda a arte desse sólido violonista que, segundo seu colega de ofício Guinga, “conseguiu a síntese”. E é isso mesmo: Felipe Azevedo encontrou o elo entre a raíz e a aura mais elevada da árvore genealógica da música brasileira (que há muito, infelizmente, deixou de ser popular).
O acurado processo de arranjo dos violões, presente em toda a obra, se destaca em Balaio de cordas (samba-maxixe). Ao som do pandeiro de Marcos Suzano, Felipe entrelaça os acordes formando um tecido harmônico dinâmico como o balançar de uma canoa em mar bravio.
Quanto ao recurso do contraponto, o disco chega ao auge em Maracatu torto, onde a dissonância e as linhas melódicas traçadas pelo violão parecem desafiar a capacidade do cantor entoar os versos de Mauro Aguiar – A paixão se aconchegou na toca / que nem jagüaretê / não tem cristão que encare / a fuça da fera / Agora é que meu peito empaca / periga até morrer / de amar, de amor, de encanto / e de primavera.
Em Canibalismoderno, Felipe Azevedo soma flautas e metais ao forró, num resgate da sonoridade típica do tropicalismo de Gilberto Gil e Tom Zé – que de certa forma é criação do genial e inesquecível maestro Rogério Duprat. Valendo-se do espaço físico disponível no encarte do disco, o inquieto compositor aproveita para problematizar: “será que a antropofagia oswaldiana já não cumpriu o seu papel?”.
Nona música do disco, também é nela que surge pela primeira vez uma referência, ainda que indireta, ao inseto que complementa o nome da obra. Que bichos são esses / triturando pedaços / mastigando estilhaços / de uma devoração?
Enunciado no subtítulo do CD, o louva-a-deus se torna ao mesmo tempo uma metáfora do homem pós-moderno – “imóvel a espiar atento os arredores da vida no seu habitat” – e um símbolo da antropofagia, com suas fêmeas de orgasmos insetívoros. Representado na capa do disco como um alien metálico percutindo as cordas do violão – “um mestre dos pizzicatos” – o inseto devorador de cabeças incorpora o que há de mais primitivo e futurista, como um arquétipo do bicho-homem-robô.
Na embolada nordestina Balanço tupiniquim, marcada pelo ponteio característico da milonga, o músico natural de Uruguaiana declara: sou louva-a-deus / cibernético jocoso / animal carnivoroso / predador a butucar... / espio tudo co’as antenas das idéia.
A mutação, a troca de peles, a fusão de identidades, são o mote do maculelê Norato Ciber Cobra. Assim como no transcorrer de todo o disco o artista busca nas expressões tradicionais da nossa música a plataforma ideal para o questionamento da pós-modernidade e a insinuação de novos caminhos, na última canção ele recorre às lendas para recuperar e re-significar a história de Cobra Norato.
Se na narrativa do folclore o homem-serpente quebra o encanto para assumir definitivamente sua humanidade, na adaptação de Felipe Azevedo um cidadão comum se transforma em cobra, engendrando um “ciber punk de alma beat” após comer uma placa de fax, baixar da internet o orgasmo e zipar seu amor no universo virtual de um chip. A rapsódia futurística conta ainda com a hipnótica atmosfera criada pela percussão de Fernando do Ó – obra de mestre.
Apesar de ser coisa nascida da alma, pura expressão da “voz do sangue”, como dizia Nietzsche ao se referir à literatura de Dostoiévski, Percussìvé é fruto de profunda pesquisa musical e bibliográfica, empreendida pelo caxias dionisíaco Felipe Azevedo. O encarte do disco registra tais estudos: cada música traz, junto à letra, um texto informativo sobre a origem dos diferentes ritmos trabalhados e, ao final do livreto, encontra-se a relação de 11 títulos que embasaram o desenvolvimento do projeto. Quase uma obra acadêmica, não é, no entanto, uma tese. Como já se disse, é a própria síntese.
New & Luís Mauro Vianna – prabaticum esplatifum brasimbolá
Prabaticum! Os feiticeiros New e Luís Mauro Vianna jogaram gigabytes de verve envenenada no caldeirão da transculturalidade. Esplatifum! Do caldo cyberproteico emergiram acordeons e programações eletrônicas, mensagens cifradas e versos singelos. Brasimbolá! Com paciência de alquimistas, conceberam o germe de um novo país – sem ingenuidade frente a caravelas, com a consciência impregnada de amor ao chão.
A partir de agora, tratando-se de mídia, o in é estar out. Mas quem está por dentro também está por fora, no paradoxo da sincronicidade. Salve salve os Deuses tupinambás, toda a metafísica, a energia qüântica e o materialismo dialético. Ácidas enxurradas e arranhões profundos no verniz opaco dos paradigmas.
Com uma banda base formada pelos músicos Giovani Berti (percussão), Jefferson Marx (guitarra), Mano Gomes (bateria) e Nico Bueno (baixo), os compositores New (arranjos, teclados, programação, voz e vocais) e Luís Mauro Vianna (voz e vocais) se apropriaram do universo conhecido para proporcionar o namoro virtual do rap com o tango no maxixe mamulengo e colocaram a extinta vanguarda paulista para apartar o encontro da vaca louca com nosso querido Boi Barroso.
Um disco para não deixar ninguém esquecer que eucalipto só é bom mesmo para a garganta. E confinado em translúcidas jujubas verdes. Jamais em campo aberto, verticalizando a infinda horizontalidade desse céu às avessas que é o pampa.
Como diz a letra da canção Cercas, interpretada pelo blackbagual Bebeto Alves, Índio irmão / Pala, espora, zune fora assombração / galopa solto pela vastidão / bandeira branca à mão / Sepé Tiarajú vem pra nos lembrar / Terra não rima com pequeno / Terra estende a mão / Terra faz cama e dá pousada / Terra traz compreensão / Toda imensidão.
Encarnando um legítimo guerreiro da terra das palmeiras, Gelson Oliveira, exímio adestrador de pandorgas, faz sua participação especial em Quase lenda, uma epopéia de 4,9 minutos sobre o impacto brutal de Portugal sobre Pindorama e a possível superação das falsas fatalidades históricas.
Ah, e as gurias do sul tem vozes de dar água na boca. Não dá para ouvir o canto de Andréia Cavalheiro e Danni Calixto sem passar a acreditar num mundo melhor, de harmonia e virtude humanas. Ouça Loa e Bonsai e entenda o que esse verbalaio todo quer deveras dizer.
Em Mosaico foto-prosaico de Nossa Senhora Aparecida, o Clube da Esquina desce de Minas para conhecer a Esquina Maldita. Ao som do acordeon sintetizado de New, que invoca Quintana, Piazzola, Gardel e Tom Jobim, segue o cortejo – prabaticum! – em procisssão – esplatifum! – rogando à santa padroeira – brasimbolá! – que traga um “tempo de paz aos temporais”:
Madrinha amada do Brasil / Abre teu manto de bênçãos / E abraça a formosa América do Sul / Tudo que nasce germina / Determina a cor do matagal / Faz de flor em flor o povo mais feliz.
Loves fora, zumbaia a parte, o disco tem faixas prontas para bombar nas pistas e estourar nas rádios. Pena que a mentalidade seja inversamente proporcional ao ego dos que articulam a mão invisível do mercado.
Os músicos Ângelo Franco, Cristiano Quevedo, Érlon Péricles e Shana Muller apearam em Porto Alegre e guardaram posto nas ruidosas noites da Cidade Baixa com a mesma naturalidade e o mesmo carisma que caracterizaram a chegada de Capitão Rodrigo a Santa Fé, no romance O Tempo e O Vento, de Erico Verissimo.
Veteranos de festivais nativistas, souberam renovar os ares da música regional sem desprezar as raízes. A bem da verdade, não há nada inovador na arte produzida por eles. Nova é sua postura, de dominar a tecnologia para fortalecer a cultura gaúcha.
O primeiro CD do coletivo, lançado em outubro, tampouco tem segredos. Saúda, se apruma e diz a quê veio. Gravado no Studio Master, em Santa Maria, com acompanhamento de Felipe Álvares (baixos elétrico e acústico), Felipe Barreto (violões), Marco Michelon (bateria e percussão) e Paulinho Goulart (acordeon), o disco não tem firulas – é o registro fiel da sonoridade concebida durante despretensiosas tertúlias na Casa Dez, espécie de Quartel General de Péricles e Quevedo, na Zona Sul da Capital.
Os versos da música Bombacha da modernidade (Érlon Péricles), deixam claro que a intenção dos fabfour pampeanos é agregar e, de quebra, celebrar a união: um amigo tomando cerveja / outro amigo de mate na mão / tem a turma lá da faculdade / os modernos e os da tradição / buenas m’espalho eu não to nem aí / a festa é gaúcha eu também quero ir.
Em Garganta com arena (Cacho Castaña) o canto de Shana Müller deixa em suspenso a respiração do ouvinte. Com acento castelhano impecável, interpreta a emocionada homenagem ao cantor argentino Roberto Goyeneche, “El Polaco”, e nos deixa com um nó apertado na garganta, tornando reais os versos da canção: Cantor, de un tango algo insolente / Hiciste que a la gente le duela tu dolor.
Guri de campo (Juarez Machado de Farias e Diego Espíndola) narra a história de um guri que, vindo do Interior, assimila a realidade urbana com a alma aberta de quem vive no pampa e, aos poucos, sente amargar o coração um dia doce. Como se falasse de si mesmo, Cristiano Quevedo canta com a voz que lhe rendeu incontáveis prêmios: No mais, eu não mudei / ainda canto milongas no violão / que é mais um vício / e busco na janela inspiração / falando de um galpão neste edifício.
Fechando o disco, o filósofo do grupo, Ângelo Franco, vale-se de toda a potência de sua voz e de seu violão de alta precisão para reafirmar sua visão de mundo em É aqui junto ao chapéu (Ângelo Franco). Eu aprendi muito cedo, mateando com meu avô / que o homem a gente conhece no rastro que ele deixou / (...) / O mundo tem olhos grandes, não deixa nada passar / enxerga o que a gente planta e o que deixa de plantar / um dia o fruto da alma de cada um vai vingar / trazendo gosto à garganta conforme Deus ordenar.
Ao todo, são 14 faixas, entre inéditas e canções retiradas do repertório individual dos cantores. A participação especial fica por conta de Pirisca Grecco, que, pelo jeito, estava com a agenda cheia e só teve tempo de registrar seus gritos de “sapucay”, na música De São Miguel a Mercedes (Mano Lima), interpretada por Ângelo Franco.
Há exatamente 20 anos atrás, a banda gaúcha DEFALLA entrava nos estúdios da BMG-Ariola, em São Paulo, para gravar o seu segundo LP, It’s Fuckin’ Borin’ To Death.
Era o ano de 1988 e Biba Meira, Edu K., Flávio Santos e eu, Castor Daudt, éramos o time oficial do DEFALLA.
Já havíamos gravado, em 1987, o nosso primeiro LP, Papaparty, ou, simplesmente, DEFALLA, e tínhamos recebido calorosas críticas da mídia nacional, grande entusiasmo dos fãs, porém, vendas regulares. Desta vez queríamos “melhorar” o som da banda em geral e utilizar todos os recursos tecnológicos possíveis da época, como samplers, efeitos, etc.
No primeiro disco nós simplesmente entramos no grande estúdio “A” da BMG e descarregamos toda a nossa bagagem musical de muitos anos, músicas já finalizadas de ex-bandas, e gravamos quase tudo com a banda “ao vivo”, só colocando os vocais e algumas guitarras e violas depois. Já neste segundo disco, nós não tínhamos nada composto! Íamos compondo na estrada, em passagens de som ou nos quartos de hotel as músicas que fariam parte deste disco.
Escolhemos utilizar o estúdio “B” da BMG-Ariola, pois era menor e dividido em compartimentos, e queríamos destacar mais o som dos instrumentos, como a bateria. Decidimos, também, todos assinarmos a autoria de todas as músicas juntos. Ainda que muitos dos riffs de guitarra, harmonias e melodias fossem minhas com letras do Edu, o resultado com a banda toda durante a criação e no final era tão bom e coeso que achamos justo que todos compartilhássemos dos créditos.
Mas, vamos pela ordem do vinil:
Lado A
1) COMO VOVÓ JÁ DIZIA: Mesmo sendo a primeira música do lado A (e música de trabalho) foi a última a ser gravada. É que, depois de termos gravado todo o disco, conversávamos com o produtor, Reinaldo Barriga, sobre como era difícil, na época, divulgar e colocar uma música nas programações das rádios nacionais, por causa do jabá e etc.Daí eu tive a idéia da gente fazer um cover da famosa música do Raul Seixas e do Paulo Coelho sem a banda, utilizando só recursos eletrônicos e samplers, bem “comercial e nojenta”, pra DJ nenhum reclamar. O próprio Raul Seixas escutou e aprovou. Deu no que deu. E foi sucesso até nas rádios AM da época.
2) REVOLUTION: Todos sabem que eu e o Edu somos Beatlemaníacos (eu sou um pouco pior). Então, fizemos uma releitura esquizofrênica de Revolution. Tem até o sampler do John Lennon cantando no finalzinho.
3) REPELENTE: Um dos meus riffs de guitarra prediletos, com muito ritmo e pausas. Um hard-funk com gostinho de metal e uma letra sacana. Virou hit da gurizada e toca até hoje por aí nas rádios. Participação especial de Edgar (IRA!) Scandurra no solo final. O solo miniatura, no meio, é do Edu.
4) GOTTA HOLD MY 5 YEARS OLD: Outra que nasceu de um riff de guitarra e virou uma “viagem psicodélica”. Letra altamente sacana, típica do Edu na época.
5) I HAVE TO SING A SONG: Composta na estrada e nas passagens de som pelo país. Era sempre um momento alto nos shows, quando eu ia para a segunda bateria, ao lado da Biba e o Edu pegava a minha guitarra. Já se falava na indecisão entre cantar em inglês ou português...
6) CHINATOWN: Fruto de um passeio pelo bairro Liberdade, em São Paulo. Maior destaque para o baixo incrível e a bateria poderosa.
7) METALLICA: Gravada ao vivo no estúdio com duas baterias (eu e a Biba). Era destaque nos shows de então. Muitas vezes começávamos os shows com ela. O riff de guitarra foi inspirado no Metallica e tocado pelo Edu.
Lado B
1) IT’S FUCKIN’ BORIN’ TO DEATH: Faixa-título, onde se nota o som da caixa da bateria se destacando mais, resultado de um dispositivo que emitia um sinal digital para reforçar o som. Coisas da época. No final da música, temos um arranjo de teclados bem interessante e que ficou muito simpático, mesmo com um riff/solinho de guitarra distorcido ao fundo. Esta música é de minha autoria com letra do Edu, baseada naquela passagem do filme Full Metal Jacket, de Stanley Kubric, em que o personagem principal diz a famosa frase entre um bombardeio e outro: “I’m Fuckin Bored To Death”, ou “Estou Muuuito Entediado” (tradução livre minha). Outra parte chupada diretamente do filme é “It’s My Rifle, It’s My Gun, This For Fighting, This For Fun”, quando os recrutas marchavam e cantavam, apontando para seus pênis e seus rifles.
Tá, a gente é fã do Stanley Kubric, né? No DEFALLA, o cinema, a TV, os quadrinhos e os livros sempre foram fonte de inspiração.
2) SATÃ: Destaca-se o riff rítmico da guitarra puxando a pesada batida de bateria e baixo, uma característica das minhas composições, pois sou originalmente um baterista. Baixo e bateria fantásticos, virou também uma das prediletas da gurizada.
3) KISS THE CHAINSAW: Mais maluquices tiradas de filmes. Samplers da serra elétrica do clássico Massacre da Serra Elétrica, o original. Baixo pulsante e hipnótico, bateria pesada, guitarras ácidas.
4) 36 DONALD DICKS: Como sempre, tudo em cima do riff da guitarra, mais aquela pitada de loucura Deffálica. Letra sem pé nem cabeça.
5) THE WOKE OF JO: Continuação pesada de JO JO, do primeiro disco.
Duas baterias gravadas ao vivo, Edu na guitarra e aquele peso. Ao vivo era muito mais poderosa.
6) I WAS TRYING TO SHOOT A GUN: Hard-rock meio Stones, mas com aquelas pitadas de LSD. Samplers e etc...Virou preferida nos shows também.
7) HEY GIRL: Rockabilly Punk minimalista sem pé nem cabeça. Gravado ao vivo de qualquer jeito. Lá pelas tantas, o Edu canta um trecho de uma música do TNT.
Entre as músicas e, por todo disco, estão espalhados ruídos, vinhetas, trechos de música, trechos de filmes ou programas de TV, diálogos e tudo o que a gente via ou ouvia na época.
No geral, eu o considero um disco muito bom, muito avançado para a época. Só vi coisas parecidas, na música brasileira, muitos anos depois.
A BMG-Ariola ainda faria uma proposta para nós gravarmos um terceiro disco com eles, mas a banda na época estava em fase de re-estruturação e, corajosos, preferimos nos arriscar no mercado independente.
O DEFALLA só voltaria aos trilhos deste estilo arrojado em 1992, com o KingzoBullshit, pela Cogumelo Records, de Belo Horizonte, que nos levaria a abrir o Festival Hollywood Rock, em 1993, para os The Red Hot Chili Peppers e o Nirvana. Mas essa é outra estória...
Ficha Técnica:
Direção Artística: Miguel Plopschi
Produção Executiva: Reinaldo (Barriga) Brito
Assistente de Produção: Tony Louvato
Engenheiro de Gravação e Mixagem: Stelio Carlini e Walter Lima
A Banda:
Biba Meira: Bateria
Castor Daudt: Guitarra, Violas, Vocal e Bateria
Edu K.: Vocal, Guitarra, Samplers e Efeitos
Flávio Santos: Baixo, Vocal e Teclados
Para quem gosta de poesia, para quem quer conhecer um pouco mais sobre a cultura gaúcha, e também para quem gosta de rock and roll (gaúcho ou não), este disco é uma porteira aberta. Te aprochega vivente.
A Califórnia, um dos festivais folclóricos mais tradicionais do Rio Grande do Sul, já conta com mais de 30 edições e uma rica história cheia de causos, lendas, erros, acertos, injustiças até, como qualquer festival que se preze e no qual sempre existirão vencedores e vencidos. Mas a divulgação da boa música feita no Estado mais subtropical do país é quem sempre sai ganhando. Este disco vendeu 50 mil cópias, número que até hoje impressiona, mas que se torna perfeitamente compreensível no instante em que o som chega aos nossos ouvidos e aquece a alma como um gole de chimarrão.
Letras politizadas sem panfletarismos, poesia romântica sem pieguices, exaltação da cultura, preocupações ecológicas e sociais. Poderia eu estar falando sobre Bob Marley ou The Clash, com certeza. O dia a dia do homem do campo, a dureza e a beleza de sua vida, a dor de abandonar o lar e a luta na cidade cruel. Seria uma canção de Bob Dylan, talvez Neil Young. Mas não. Estes são alguns dos principais e universais temas de que tratam as doze músicas deste disco. O poeta que canta seu torrão canta o universo. E como diria o payador Atahualpa Yupanqui, que fez lendária apresentação nesta Califórnia: “Yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar“.
O disco começa com o grande vencedor da edição, é claro. Veterano, dos tão lembrados versos Se lembro os tempos de quebra / a vida volta pra trás / sou bagual que não se entrega assim no más. Com o poderoso instrumental do afiado conjunto de Leopoldo Rassier, a melodia começa com uma seqüência de gaita, violão e bumbo legüero (o power-trio da música nativista) e segue com um baixo graforréicamente marcado. O texto fala sobre o processo de envelhecer, sobre o tempo em que já nos falta força pra cumprir nossas funções. Mas um bom gaúcho nem ao tempo se dobra, pelo menos não assim no más, e mantém o espírito sempre jovem.
Romance na Tafona: uma estória de amor gaudério, entre um casal de negros que, depois de muito tempo de espera, finalmente se entregam como nos descreve os quase eróticos versos A negra de amor queimava tal qual o negro na espera / incendiaram de amor a tafona / antes tapera. Violão dedilhado e percussão ilustram a preparação cuidadosa do ambiente pelo homem até a chegada da esperada companheira. E um raio no meio do campo abençoa a união dos dois.
Se o Rio tem a figura do malandro e, a Bahia, o capoeira, o Rio Grande tem um tipo folclórico que é fanfarrão, que gosta de festa, dança e trago, como descrito de forma magistral em Recuerdos da 28. Toda a malícia e o bom humor na crônica de uma noitada deste indivíduo, quando coloca a mão nos cobres. Uma tava de prata de brinde pra quem descobrir o instrumento de timbre esquisito que faz o solo da introdução. Mais uma que se transformou em clássico: e num relance se não vejo alguém de farda / eu grito, me serve um liso daquela que matou o guarda. Mazzááááá...
Pago Perdido fala de outrora, recordações daqueles que tiveram muito, lutaram muito, mas foram engolidos pelas mudanças deste senhor impiedoso que é o tempo. Aqui o bumbo legüero novamente faz a marcação e outra característica marcante da musicalidade gaúcha se apresenta: os arranjos vocais, que neste disco terão seu ápice na próxima faixa.
O mangrulho é a faixa mais Beatles do disco. A extensa introdução, com os dedilhados do violão e os vocais trabalhados, somados à temática contestatória cantada de uma forma agridoce, finge falar do passado pra ser o mais atual possível, como nos versos A cobiça estrangeira, porém, nunca passa. E nós, mangrulhos, seguimos orgulhosamente irredutíveis.
Porque, se não formos irredutíveis, desapareceremos, assim como desaparecerão nossos costumes e raízes. E é justamente isso que reclama Jaime Ribeiro ao cantar Baile chucro. Uma ode à gaita, instrumento que muito representa a musicalidade gaúcha, pra que não morra os costumes deste chão.
Qualquer lado b de um grande disco que se preze começa com um clássico. Este não foge à regra. A voz teatral de Vitor Ramil escreve mais uma página na história do festival com Semeadura. Sem dúvida, um grande clássico. Hora cantando, hora declamando, hora em português, hora em espanhol, versos como Nós vamos repartir companheiro o campo e o mar,ou Americana pátria morena quiero tener guitarra e canto livre en tu amanhecer, vão derrubando cercas e marcos fronteiriços, pois assim como o vento, a música também desconhece fronteiras.
Floreios de gaita aliados à voz doce e forte de Maria Luiza Benitez (ver vencedoras mais abaixo) reclamam, em Pelo Duro, de uma realidade que a muito se apresenta: o êxodo do homem do campo para a cidade e, por conseguinte, a perda de sua identidade e abandono dos seus costumes. Sem bombacha, sem rancho, tendo de usar outras cores, que não as de seu chão, porque a moda que vem ditada de fora e não fala das nossas coisas. Eu sou gaúcho, por incrível que pareça.
A linda poesia de Lições da Terra exalta a importância do pequeno agricultor. Uma lição que certamente sabemos de cor, mas que ainda tem muito a nos ensinar. Infelizmente, pessoas mais áridas que a terra continuam a explorar, expulsar e plantar a injustiça. Mas a vida do gaúcho é sempre luta e a percussão vai marcando o ritmo da cavalgada e o dedilhado do violão nos leva a esquecer os calos e a sonhar com dias melhores.
A musicalidade psicodélica de Queimada quase nos faz esquecer das duras palavras que este libelo ecológico brada, deixando a mensagem bem clara no aviso:
É hora do homem parar de agredir, ou gerações futuras serão caravanas errantes condenadas a morte da fome numa terra que não vai parir
O cheiro de morte no verde do chão, no qual é estendido um negro sudário, tem causa, conseqüência e culpado. A atualidade dos temas expostos nessas últimas canções só vem confirmar a importância da Música como veículo de educação e cultura. E fica o alerta de que muito já se falou e pouco se fez para mudar alguma coisa.
A beleza de uma milonga de gaita e violão é conhecida de todo gaúcho e, ainda assim, é um mistério. É onde o belo e o triste se tocam, onde o coração perde o compasso e a alma vai passear por cantos escuros e solitários aonde covardes não chegam nunca. Como um Entardecer.
Como se já não bastasse, para fechar o disco temos Ofício Solidão, que fala do alambrador e sua profissão, este que aprisiona gente e terra nos sete fios afinados. Com rico arranjo vocal, mais uma voz feminina se faz presente. E falar o que das gaúchas? Elas falam por si mesmas.
Pela qualidade das letras, dos temas e dos arranjos esse é um disco que merece ser buscado e ouvido com muita atenção. Seja gaúcho, pernambucano, ou inglês, não importa, pois quem coloca os pés no chão, antes de tudo, coloca os pés no planeta Terra. E o canto de um passa a ser o canto de todos.
Vencedoras:
Troféu Calhandra de Ouro e Canção mais popular: Veterano
Melhor intérprete masculino: Jorge André
Melhor interprete feminio: Maria Luiza
Melhor arranjo: Recuerdos da 28
Melhor conjunto instrumental: Os Serranos
Melhor conjunto vocal: Uruchês
Melhor instrumentista: Dino Pires
Melhor indumentária: Piquete dos Gaudérios - Carlinhos Castilho
Troféus:
Troféu Guitarreiro (melhor violão): Enio Rodrigues
Troféu India Imenbuí (melhor letra): Caminhos de Volta - Luiz Coronel
Troféu Carqueja (melhor trabalho de pesquisa): José H. Retamozo e Juarez Chagas
Troféu Osmar Melleti (Linha de projeção folclórica): Semeadura / (Linha de manifestação rio grandense): Romance na Tafona
Ao ouvir as primeiras frases dos violões de Marcio Rosado e Ricardo Martins, em De Boas Vindas, tema de abertura do disco, já fica evidente que a reedição de Coplas de Um Gaúcho Brasileiro é uma das iniciativas mais louváveis de 2008. Sirva um liso daquela e segure o queixo, porque se trata de um álbum repleto de surpresas, faixa a faixa.
Gravado em diferentes estúdios, entre Lages, Pelotas e Santa Maria, com primorosa e constante qualidade de captação, o CD de estréia de Ângelo Franco transborda esmero na concepção e na execução dos arranjos. Rodeado de uma turma de primeira, o compositor e intérprete de São Luiz Gonzaga tranca o pé e emposta a voz nas 16 canções que integram o disco originalmente lançado em outubro de 2002.
A multiplicidade de ritmos caracteriza o repertório, formado a partir de participações de Ângelo em diversos festivais. Como cantado na última música do disco, São toadas que afloram / Chamamés que navegam / São milongas que choram / São vaneiras que alegram.
As temáticas vão desde a crônica bem humorada de Vila dos Borracho, à poesia em tom épico de O quadro que a adaga fez, com direito a reflexões políticas sobre a importância do povo gaúcho na formação de uma possível identidade nacional, na faixa título Coplas de um gaúcho brasileiro.
Digna de levantar o público em qualquer festival, Vila dos Borrachos (Túlio Urach / Ângelo Franco / Gibão Strazzabosco), executada por primeira vez na 27ª Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana, poderia ter sido defendida pelo bom e velho Tambo do Bando, tamanho o requinte instrumental e a irreverência da interpretação. Definindo já de cara que Na vila dos borracho garrafa é teta e ninguém é guacho, a letra da música descreve o cenário tumultuado de uma algazarra louca onde Até o ponteiro do relógio dá um passo pra frente / Dois ou três pra trás. A sensação é de que estamos diante de uma das geniais ilustrações do chargista Santiago.
A peleia de dois irmãos, um chimango, outro maragato, é descrita nos versos de O quadro que a adaga fez (Carlos Omar Gomes / João Bosco Rodrigues), originalmente apresentada na 8ª Sapecada, de Lages (SC). Executando um dos arranjos vocais mais ricos do CD, João Bosco Rodrigues, Pedro Guerra e Rodrigo Rheinraimer se juntam ao anfitrião para pintar o quadro trágico: Os olhares frente a frente / temporais no coração / têm a fibra de sua gente / esquecida no rincão / Nessas hora a morte pulsa pelas armas em suas mãos / Nessa hora a morte busca cada irmão.
Com voz dramática e sem arremedos, Ângelo completa o drama: Dois irmãos, mesmas origens / dois destinos a cumprir / Lenço branco e colorado já ostentam a mesma cor / Duas lágrimas correndo no olhar de quem tombou / Duas lágrimas correndo por amor // Num ranchito-beira-estrada outras lágrimas virão / num olhar triste de geada que ficou lá no rincão / Os soluços de uma mãe murmurando uma oração / Perguntando para Deus: Onde estarão?
A dureza e a alegria dos rituais das lidas campeiras é o tema de Tem marcação no Sodré (Davi Teixeira / Túlio Urach), 16º Festival da Música Crioula, de Santiago. A gaita ponto de Tiago Abib já de saída mata a pau, exigindo não mais que um contra-baixo e dois violões para transformar em festança a obra-prima.
Ângelo Franco se encarrega da função de narrador: É dia de marcação nos varzedos do Sodré / O sol ainda cochila, a peonada já está de pé / Na picumã galponeira hay mate prosa sincera / e algum cuspidor dando fé.
É quando Gustavo Teixeira, fazendo as vezes do capataz, ordena o início da empreitada: Não alonguem a conversa / temo muito que lidar / damo de mão nas trançada / parando de chimarrear / Um tilintar de chilenas é sinal de que os ventenas tão na forma pra enfrenar.
Encarnando o papel de peão, Piriska Grecco trata de animar a indiada: Apura, pega esse baio ou quem sabe o alazão / só deixa o gateado ruano que é o cavalo do patrão / encilha, já quebra o cacho / largamo lançante abaixo, repontando a criação.
E os três, por fim, se encontram em uníssono crescente: Cosa lindaça uma estância atopetada de vaca / A peonada anda loca com os zóio que é umas pataca / Gado parido em ninhada, nunca se viu tanta res / Se finca o pé na macega, te jogo que salta três.
Os violões de Márcio Rosado e Fabrício Harden brilham magistrais na música Coplas de um gaúcho brasileiro (Ângelo Franco). Além de dar nome ao disco, a canção também participante do 16º Festival da Música Crioula, de Santiago, antecipa a temática predominante no segundo disco de Ângelo Franco, Eu Sou Gaúcho: o ideal libertário, que se afirma como a mais alta e legítima tradição do Rio Grande do Sul.
Esta parada que eu carrego no meu jeito / vem do meu peito embriagado de ideal / Eu sou de um povo que se fez a ferro e fogo / guardando posto no Brasil meridional / (...) A cada dia que o Brasil fica mais velho / eu me revelo mais gaúcho e brasileiro / Pena que os olhos do país às vezes turvam / e nos enxergam muito mais como estrangeiros / (...) Nossas verdades tem razões nacionalistas / como ativistas da cultura regional / Já não pregamos nenhuma separação / revolução é dar a mão ao seu igual.
Encerrando o disco, Quando as vozes vestem versos (Juca Moraes / Túlio Urach / Leonardo Almeida), gravada ao vivo na 30ª Califórnia, é o melhor exemplo do caráter universal de boa parte dos arranjos da obra. Uma milonga jazzística, repleta de contratempos e dissonâncias, emoldurada pelos teclados de Ricardo Freire e pelos vocais do tecladista e de Piriska Grecco. Flertando com a metalingüística, Ângelo arranca uivos e aplausos do público, depois de entoar, impecável como um guerreiro:
Há noites que vêm frias / branqueando as quinchas dos ranchos / onde se encontram caranchos / Com suas guitarras e penas / buscando rimas serenas / pra seus poemas campeiros // Seus olhares são braseiros / As vozes vestem seus versos / para entregá-los dispersos // Ao poncho quente das palmas / e nem mesmo o frio dos invernos / apaga o calor dessas almas // São toadas que afloram / Chamamés que navegam / São milongas que choram / São vaneiras que alegram / São de lida parceiros / e de sonhos irmãos / São de sina estradeiros / São a própria canção.
Pata de Elefante - Um olho no fósforo, outro na fagulha
Realmente surpreendente! Claro que há tempos conheço o potencial desse trio, desde os primitivos tempos de mamutes, com toda ordem de bares, botecos e festinhas sempre lotados, com o público boquiaberto com a novidade musical de Porto Alegre. Desde shows com repertório mais tranqüilo numa cantina nos altos do viaduto da Borges, a inferninhos pulsando com a visceralidade de Gabriel Guedes (guitarra/baixo), Daniel Mossmann (guitarra/baixo) e Gustavo “Prego” Telles (bateria). Depois do bem sucedido CD de estréia, lançado em 2004, eis que estou numa farta churrascada com amigos e escuto praticamente em primeira mão Um olho no fósforo, outro na fagulha. Reiterando o inicio do parágrafo: realmente surpreendente!
O equilíbrio da autoria das canções evidencia o talento de seus integrantes como compositores. A estradeira Solitário, de Gustavo Telles, nos remete a uma highway erma do interior do Texas, ou até mesmo ao asfalto que corta o nosso pampa, com uma bela melodia interpretada pela guitarra. Em seguida, Hey!, de Gabriel Guedes, expressa agressividade na dose certa, flertando com surf music. Marta, de Daniel Mossmann, traz vigorosa melancolia, um best of dos sentimentos que um homem pode ter em relação a mulheres, música e vida (pelo menos é assim que me sinto).
Um dos pontos fortes do novo disco é o ecletismo das faixas. Psicodelia a la Sgt. Peppers em Dom Genaro (Gustavo Telles), plenitude e paz em Presente para Mary O (Gabriel Guedes), country e rock em Estranha (Daniel Mossmann), a auto-explicativa Bolero das Arábias (Daniel Mossmann) e rockão com pedal steel em Carpeto Volatore (Gabriel Guedes). Outro diferencial desse segundo trabalho é a pluralidade de participações especiais e colaborações nos arranjos, com direito a eficientes e venenosas linhas de sopro, pianos, órgão, cítara e percussões, dando ares de big band em diversos momentos, como na faixa que dá titulo ao disco, um rock soul ao melhor estilo Ray Charles.
Márcio Petracco, Luciano Leães, Alexandre “Papel” Loureiro e Julio Rizzo, figuras mais que tarimbadas da música sulista, são alguns nomes que abrilhantam essa obra. Um olho no fósforo, outro na fagulha foi gravado no Estúdio IAPI, com registros adicionais no Estúdio Dreher, mixado por Thomas Dreher e produção assinada pela própria banda e Vicente Guedes. O capricho e a preocupação com captação, produção e mixagem estão latentes e, por se tratar de música instrumental, a Pata de Elefante deve ultrapassar todas as fronteiras nessa nova turnê.
Nestes dias em que tudo vaza pelos cabos da world wide web, quase ia me esquecendo da gostosa sensação de esperar o lançamento de um disco. Mas foi essa minha surpresa quando um amigo me disse: “Tá saindo o disco novo do Vitor Ramil. Fui num show e ele disse que gravou um disco inteiro de samba!”. A princípio, não acreditei. Quem já foi num show do Vitor, sabe o quão perspicaz e irônico ele pode ser. Mas fiquei esperando, ansioso, como nos velhos tempos em que rolavam boatos de um novo disco da Legião Urbana, ou do The Cure, que demoravam uma eternidade pra se confirmar. Até começar a rolar nas rádios, paulatinamente, faixa por faixa.
Ansiedade. Foi isso que senti quando coloquei a primeira faixa do CD Satolep Sambatown pra rodar. Sentimento que foi se transformando em alegria e prazer. Quando o violão de cordas de aço rasga o ar me vem a imagem de João Gilberto de bombachas, sentado num banquinho com o chimarrão ao lado. E quando uma cuíca, como uma alfinetada no coração, chora junto, dou uma gargalhada e entendo tudo: não, não é brincadeira; muito pelo contrário, é seríssimo.
Vitor Ramil sempre foi um artista em construção. Nunca um acomodado e jamais previsível. Com uma discografia impecável, shows antológicos e uma contribuição ainda a ser reconhecida pelos historiadores da música brasileira, o artista se recria novamente, como um Bowie, como um Júpiter Maçã. Se reinventa, sem perder a linha, sem perder a meta, sem se perder pelo caminho. Vai cruzando fronteiras, pulando muros, diminuindo distâncias, soprando novos ventos, arejando a casa.
De uma série de shows no Rio de Janeiro, veio o convite a Marcos Suzano para fazerem um disco juntos. Suzano, carioca, percussionista de espírito inquieto e experimental, aceitou o desafio de colocar pandeiro na milonga, ritmo na harmonia sinuosa e temperada das canções de Vitor. Ainda temos a participação da também carioca Kátia B (voz em Que horas não são?) e do uruguaio Jorge Drexler (voz em A zero por hora).
O novo não tem rótulos, como um poema novo sem papel. Livro Aberto, primeira canção do CD, traz pandeiro e cuíca fazendo a cama para uma letra que fala de solidão, da ausência de alguém que se traduz nos objetos ao redor. Um tema bastante comum em sambas. Entretanto, versos como Esse livro aberto como uma saída nos mostram que não estamos num universo trivial, de rodas de samba no fundo do quintal, rodeados de cervejas e amigos.
A sutileza dos versos de Invento (Vento / Que varre os segundos / Prum canto do mundo / Que fundo não tem) se repete na percussão de Suzano, um cajón com efeitos. Preciosidade. A terceira faixa, Viajei, é uma quase bossa nova quase eletrônica quase alegre. Uma canção literalmente assoviável, que prepara o clima pra outra viagem: o dueto com Kátia B, na mântrica Que horas não são?
Na quinta faixa, O copo e a tempestade, Vitor abandona o violão e defende a melodia somente com a voz, acompanhado do pandeiro de Suzano. Com versos como Mas não tenho sede / Não quero beber, vai construindo temáticas novas, adicionando, contribuindo com o samba, de uma maneira só vista talvez no Estudando o Samba, de Tom Zé.
Com a participação de Jorge Drexler, A zero por hora é a música mais leve da obra. Samba cantado em português por um uruguaio, falando de São Paulo, da rua Augusta, de uma policial que estende a mão, disparando versos como O mundo visto desse jeito / É uma diversão. Isto é Satolep Sambatown.
Drexler também participa como letrista em 12 segundos de oscuridad, uma antiga melodia que Ramil nem lembrava mais (segundo contou em sua última apresentação na reitoria da UFRGS, em dezembro de 2007), trazida à tona novamente pelo músico uruguaio. Menos recente também é A ilusão da casa (gravada originalmente no disco Tambong, 2000), revisitada por Suzano, mas que não acrescenta muito à primeira versão. Café da manhã (disco À Beça, 1996) tampouco traz novidades, mantendo nessa releitura a genial dramaticidade.
Nem toda a imaginação reclusa de Emily Dickinson conceberia um dos seus poemas – A word is dead – musicado dessa maneira. O poema está na língua inglesa, mas a música é brasileiríssima. Satolep desconhece fronteiras, assim como um astronauta que, do alto, não avista limites. E é sem limites que Astronauta lírico fecha o CD e, de certa forma, explica o que foi a experiência do contato com as melodias registradas em Satolep Sambatown:
Quero perder o medo da poesia Encontrar a métrica e a lágrima Onde os caminhos se bifurcam Flanando na miragem de um jardim ... Eu astronauta lírico em terra
Rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia, são características da chamada Estética do Frio, mas permeiam toda a obra de Vitor, incluindo seus deliciosos sambas temperados. Sendo assim, puxe um cobertor, assuma toda a sua carioquice, abra um bom vinho, diminua a luz e caia no samba.
Agora você já pode levar o funk da paz da Proveitosa Prática para casa. Praticando pelas casas noturnas de Porto Alegre desde 2001, a banda finalmente lançou, no segundo semestre de 2007, via Fumproarte, o prometido CD de estréia. Com design gráfico caprichado, encarte com letras e ficha técnica, numa embalagem prática e elegante, que dá gosto de manusear.
Como indicado no encarte, a banda de Brawl (baixo), Guga (voz e guitarra), João Baptista (bateria), Joãozinho (teclado e sintetizador), Juliano ZB (voz, flauta transversa, cavaquinho e trompete), Marceleza (percussão), Pazetto (voz e guitarra) e Slap (voz e trompete) tem como principais referências Jorge Ben, The Meters, Funkadelic e Parliament.
As letras das canções não são o ponto forte da banda, apesar de algumas boas sacadas com em Vai Guri (Então vai, guri / mostra a quê veio / Os pagos não são novos / mas teus olhos são) e na swingada Porto Alegre (“Simples” é ideologia e fortalece a união / mateando ao pôr-do-sol / na batida do legüero / Na roda uma viola, dois trompetes e um pandeiro / Assovia minuano que chegou o fim do dia).
O que vale aqui, mesmo, é o som. E bota som nisso. Impossível ficar parado escutando a contraditória Silêncio ou a fabulosa Fabuloso. O clima é de festa e de paz. Instrumentistas de primeira linha chamando todo mundo pra dançar, sem preconceito, sem amarras, sem violência.
Se as pistas de dança dos bares de Porto Alegre não fossem tão repetitivas e se permitissem um pouco mais, certamente a Proveitosa Prática estaria rolando por várias delas e animando a noite dos que curtem se sacudir.
A banda do Mitch Marini. Assim me referia ao Câmbio Negro, banda formada no início dos anos oitenta por Marini (baixo) e pelos mais requisitados professores de música da época: Thabba (bateria) e Zezé (guitarra). Quando o LP Hard Rock foi lançado, em 1989, o power trio há muito se desintegrara, transformando-se em quinteto: Marcelo Fornazier e Deio Escobar (guitarras), Tagore Chenier (voz), Gelson Schneider (bateria), além do mentor, baixista e compositor Mitch Marini.
Quando soube do lançamento, me toquei para o Centro. Numa loja de discos da Galeria Chaves ouvi, em estado de graça, o LP tão esperado. A gravação trazia arranjos mais ricos do que os habitualmente executados nos shows e, apesar dos discutíveis padrões técnicos da época, reproduzia satisfatoriamente o peso habitual da banda.
Doce Confusão abre o disco revelando as notas características do trabalho da banda. A letra da música, por exemplo, mostra uma particularidade da arte de Mitch Marini: o diálogo entre o imaginário de um fã devoto dos Beatles e as temáticas do rock pesado do final dos anos setenta. Neste caso, versos como Temos o que quisermos / Dentro de nossas cabeças / E não importa onde estivermos / Now is our turn são seguidos de mensagens como Tudo, tudo, o amor é tudo / Chama interior, sou todo o universo.
Os duetos e “relinchos” de guitarra, próprios da época. O poderio vocal de Tagore, indo dos graves às notas mais altas – agudos nunca ouvidos pelo público porto-alegrense até então, a não ser nos discos do Deep Purple da fase Ian Gillan. A cozinha consistente de Marini e Schneider, primando pelas linhas retas e pesadas. Está tudo ali, já na primeira faixa.
Mas não pense que o restante do disco é déjà vu. Pelo contrário, a bolacha de dez faixas vem recheada de surpresas. Destaque para Modo de Fazer, de Fornazier, obra prima da música instrumental. Num momento solo, o guitarrista apresenta uma das mais bonitas melodias do cancioneiro gaúcho. Coisa para ouvir relaxado, de olhos fechados, refazendo-se do turbilhão hard rock da banda. Não por acaso, Modo de Fazer foi o tema escolhido para fechar o lado A.
As surpresas do lado B só pude conferir depois de juntar um troco e adquirir a obra. Naquela época, as lojas ofereciam pratos e fones de ouvido para que os clientes ouvissem os discos, mas, caso os vendedores desconfiassem que estavas duro, te mandavam passear.
Dias depois, atirado no sofá da sala, numa daquelas tardes intermináveis da adolescência, ouvi por primeira vez o petardo roqueiro de Deio Escobar Apenas Meu Sangue (Posso derramar / Meu sangue num palco / Fazendo uma cachoeira / Que afogue vocês) e a belíssima balada de Tagore Chenier Velho Bar (A solidão infinita me perturbou / As coisas bonitas, tudo acabou / Viagens, loucuras, que de nada adiantou / Trocar meu olhar, que enfim me custou / Demais), com direito a baixo acústico e solo de flauta, tocados respectivamente por Marini e Tagore.
Outro grande momento do disco é Fire, de Jimi Hendrix. O cover, executado com total propriedade, impressiona pela fidelidade à versão original e pela semelhança do timbre da voz de Mitch Marini com a do guitarrista americano. Cabe aqui ressaltar que, assim como a maioria das músicas do disco, Fire foi gravada “ao vivo” no estúdio.
Utilizando o chamado sistema DAT (Digital Audio Tape), Hard Rock foi um dos primeiros trabalhos independentes gaúchos a se valer das facilidades da tecnologia digital, recém chegada ao Estado. Assim, das dez faixas do disco, seis foram gravadas das 20h às 23h do feriado de Tiradentes de 1989, no estúdio A da Isaec.
Das canções registradas em diferentes takes, Os Sinos e 1999 tiveram as bases gravadas ainda em 1985, com participação de Ariel Gandolffi (guitarra em 1999), Bebeto Mohr (bateria em 1999), Fernando Paiva (bateria em Os Sinos) e Zezé (guitarra em Os Sinos).
A letra de Os Sinos, escrita por Mitch Marini em parceria com Fughetti Luz, lembra o misticismo pagão do Black Sabbath: E quando os sinos tocarem / Bem longe das catedrais / Não poderão tirar / A nossa força jamais. Já 1999 trata das profecias do apocalipse, prometido para o final do milênio: Todos os profetas já disseram que o mundo está no seu final / Pra milhões de pessoas não existe o amanhã / Ásia, África, América Latina, não existe solução / Já não há mais pão e o circo pegou fogo.
Mais do que o registro de um momento importante na história da nossa música, o único disco do Câmbio Negro é também o documento definitivo da obra poética e musical de Mitch Marini, falecido recentemente. Apesar do LP estar há muito esgotado, ainda é possível encontrar seu conteúdo em diferentes formatos. Pesquise!
Envolvido com música desde a década de sessenta, Cláudio Levitan esperou os estertores do segundo milênio para lançar seu CD de estréia. Com a participação de grandes nomes da música gaúcha, como Hique Gomes, Nei Lisboa, Nelson Coelho de Castro, Nico Nicolaiewsky, Conjunto Saracura, Totonho Villeroy e Vitor Ramil, O 1º Disco (1996) traz Levitan apenas na faixa título. Conforme diz o compositor no texto do encarte, “me transformei num privilegiado passageiro clandestino desse disco voador”.
Acompanhado da Grande Orquestra da Sbórnia, Levitan encarna o professor Kanflutz para contar a história do primeiro disco a pousar na terra. Com sotaque germânico, ao som de uma espécie de polka apocalíptica, o enigmático professor esbanja sátira e crítica social ao narrar a descida do estranho objeto no quintal do Seu João. Este, temendo ser desintegrado pelos prováveis marcianos, decide dialogar, dividir o pão, o peixe, o bolo. Entretanto, qual não foi sua surpresa,/ quando a porta da nave se abriu / e um bando de meninos saiu. / Eram engraxates, pivetes, / menores abandonados no espaço sideral.
A seguir, os cantores da Sbórnia, Maestro Pletskaia e Kraunus Sang, apresentam o Tango da Mãe. Inovando o clássico arranjo violino-vozes-acordeon do espetáculo Tangos e Tragédias, a canção recebe roupagem eletrônica com teclados e programações rítmicas do alemão Jan Clemens Moeller.
Outro sucesso revisitado é Ana Cristina. Transformado em hip-hop, o tema ficou sob medida para estourar nas pistas de dança de todo o país. Em parceria com o então adolescente Guilherme Gomes Reichelt, Hique Gomes declara: Ana Cristina eu não gosto de você / tô amando loucamente a tua mãe! / Foi de manhã, eu fui tomar café, / apareceu a velha, sabe cumé!
From The Other Side, anteriormente gravada por Bebeto Alves na coletânea Porto Reggae, ganha textura instrumental a base de acordeon, tuba, teclado e bateria. Retomando a temática social, Nico Nicolaiewsky dá o recado: Don´t come with your guns / full of hate to take care of our freedom. E mais adiante: Hei, man! From the other side of my world…/ Here is so nice, so fine, so beautiful, / but I know that you think we are fool.
Também em inglês, Vitor Ramil aborda a questão das drogas em Pinball Machine. A impecável linha de baixo de Zé Natálio e a guitarra distorcida de Léo Henkin remetem ao estado alterado, elétrico, de confusão e agonia dos viciados em anfetaminas. What we are losing, by using and abusing drugs / we are gaining with brain machines / in the future they´ll start to dream for us! / Life goes by like Pinball Machine!, diz a letra de Cláudio Levitan e Bob Zimbabwe.
Balde Furado marca o reencontro do Conjunto Saracura, que na primeira metade da década de oitenta tinha Levitan como um de seus principais compositores. A quatro vozes, acompanhadas apenas pelo piano de Fernando Pezão, a música modula a intensidade do disco, como se demarcasse o início do “lado B” do CD, composto basicamente de baladas.
A interpretação de Totonho Villeroy, encarnando um bêbado francês em Fado do Bebum, é hilária, no melhor sentido que se possa dar ao termo. A letra da canção não deixa por menos: Toda vez que me embriago eu caio e durmo. / Acordar é um drama, a cabeça trama / com o corpo pra não se levantar. / O braço combina com a perna fina / pra não se mexer. / A mão sustenta que o dedo é pequeno / e não deve se envolver com bêbados!
Marcou Bobeira, com Nelson Coelho de Castro, e Nada Mais, com Nei Lisboa, fecham a obra com versos de ouro: Quem leva tempo não muda, / só atrasa a sua volta, / quem leva medo, fica, / perde tempo, perde a vida, / e não vê nada (Marcou Bobeira) e Se eu te disser que não te quero tanto, / só o suficiente pra te agüentar, / se eu te disser que não te quero mais, / nada mais, ehê, nada mais! / Se eu morrer, o que vão dizer em casa? (Nada Mais). Ambas com primorosos arranjos de Léo henkin. A primeira, um reggae-blues de guitarra e teclados. A outra, uma orquestra de câmara sintetizada. Tudo executado pelo próprio arranjador.
Apesar de lançado há mais de dez anos, o CD ainda é encontrado em estabelecimentos que trabalham com discos independentes. Vale a pena procurar. Sem dúvida, vale também o investimento. Não só pela qualidade musical de O 1º Disco, mas pelo rebuscado projeto gráfico do encarte, assinado por Cláudio e seu filho Lucas Levitan. Além das letras, texto de apresentação e ficha-técnica detalhada, o libreto é ilustrado com um excelente ensaio fotográfico de Eneida Serrano, mostrando todos os interpretes, inclusive os personagens Professor Kanflutz, Maestro Pletskaia, Kraunus Sang, Vitor “Pinball” Ramil (rodeado de bolitas de gude) e Totonho “Bebum” Villeroy (maltrapilho e abraçado numa garrafa de vinho).
Nico Nicolaiewski esteve em todos os lugares-comuns da lírica amorosa a fim de descobrir o paradeiro do amor. Acompanhado de fiéis e hábeis escudeiros, revisitou rocks, valsas e baladas para empreender a jornada em busca desse sentimento cada vez mais restrito à dimensão dos mitos. Apesar de retornar dessa empreitada dantesca sem respostas objetivas, o compositor nos trouxe, cuidadosamente resguardado em seu alforje, o CD Onde está o Amor?, lançado recentemente pelo selo Bela Música.
Na evidência do fim de um grande amor, o poeta inicia sua jornada na solidão de quem ainda guarda uma centelha, uma réstia do brilho da paixão perdida. Ouvindo o tema de abertura, a quase brega Só eu e mais ninguém, parceria de Nico com Fernando Pezão, pensamos o quanto seria bom se as duplas românticas espalhadas Brasil a fora nos presenteassem com canções desse calibre.
Ao som de teclados e programações eletrônicas de John Ulhoa (que também assina a produção do disco), nosso herói pergunta: onde está o amor / que eu não conheço / onde está o amor / eu quero estar também. A atmosfera de Onde está o amor? remete a uma paisagem brumosa, enevoada, na qual o personagem, perdido, desorientado, lança ao léu suas interrogações. É apenas o início da viagem.
Sinalizando que estamos de volta ao mundo real das lembranças do poeta, as programações eletrônicas cedem espaço à bateria seca e vigorosa de Diego Silveira e à guitarra básica e roqueira de Luciano Albo na balada Volta menina, parceria com Cláudio Levitan.
A partir daí, nosso guia do labirinto revive paixões platônicas (Só você não vê, de Nico e Pezão), amores não correspondidos (Nada faz sentido, parceria com Antônio Villeroy), a perda de si mesmo (Tudo que eu fiz, outra excelente balada em parceria com Levitam) e o vazio inevitável (Te amei tanto, uma canção intimista assinada somente por Nico).
Na oitava faixa, Ser feliz é complicado (também composta sem parceria), o poeta cai em si, deixa as lembranças para trás e encara com otimismo o caminho a sua frente: Vou deixar o sol entrar / acabar com a escuridão / abrir a janela do quarto / e gritar para o mundo / eu quero outra chance. Destaque para os lindos arranjos vocais de Nico, Albo e Ulhoa.
O clima de apoteose e positividade cresce em Bombas de beijo (também com Villeroy). A esperança desmedida arremessa nosso perseguidor a um estado alucinatório. Sedado pela perspectiva de encontrar o amor finalmente, o poeta narra sua miragem: Tudo se move / o mundo me envolve / e os dias velozes não vejo passar / A cidade tomada de pura alegria / e o povo a cantar.
Como quem anda em círculos, repetindo estéreis diálogos internos, o narrador retoma a dúvida e a indecisão na música A vida é confusão (outra só de Nico). No entanto, como se percorresse uma estrada em espiral, a cada volta o poeta está além; já não há retorno possível e, no enfrentamento das contradições, ele parece se aproximar mais do que nunca de seu destino de amor e glória: A vida é confusão / a vida vai seguir / os homens vão sonhar / os deuses vão sorrir / a vida é confusão / o mundo vai girar / os deuses vão dançar.
Na ante-sala do paraíso, entretanto, uma nova, fatal e aterradora pergunta acomete nosso mártir: Pra que o amor? (parceria com Levitan). Como numa ópera, a trama chega ao climax adquirindo um tom bombástico. A revolta e o inconformismo tomam conta do poeta que decide sair pra rua / cansei da solidão / vou me esconder agora / na multidão.
A valsa Advertência (somente de Nico) fecha o disco com uma inesperada conclusão: se você quer sinceridade / fique longe das canções / pois aqui nada é de verdade / nem o amor nem as paixões. Embora o tom burlesco do instrumental dê a impressão de que nosso amigo embirutou de vez, trata-se, na verdade, do momento de maior lucidez de toda a jornada. Se o amor não está nas canções, que tal procurá-lo na vida real, no brilho dos olhos, nas palavras sinceras, no abraço fraterno, na beleza das imperfeições do cotidiano?
Talvez o verdadeiro amor esteja no cuidado que Nico Nicolaiewsky dispensou na realização deste disco. Gravado nos estúdios Beco das Garrafas e Kiko Ferraz Studios, de Porto Alegre, e Estúdio 128 Japs, de Belo Horizonte (onde foi também mixado) e masterizado no Classic Master, de São Paulo, com ajuda dos escudeiros Diego Silveira, Fernanda Takai, John Ulhoa, Luciano Albo, Thiago Braga e Xande Tamietti, Onde Está o Amor? é dos trabalhos mais bem acabados e ricos em beleza humana dos últimos tempos.
Se você quer sinceridade, não deixe de ouvir esse CD.
Tudo bem que estamos na plenitude da primavera e nas adjacências dos quentes dias de verão, mas em 2007 se completam 10 anos do lançamento de um ícone da música feita no RS: Ramilonga - A Estética do Frio. Vitor Ramil conseguiu registrar um cartão postal sonoro sobre as características do extremo sul do Brasil. Um disco intimista que catalisa profundas reflexões para quem vive ou viveu algum período da vida no pampa, trazendo à tona lembranças de infância e adolescência, reforçando o imaginário popular e pessoal de personagens históricos e típicos da região.
O inverno é a estação que mais distingue nosso estado do resto do país, e torna nossos hábitos e costumes inclusive mais próximos dos vizinhos Argentina e Uruguai. Ramilonga, faixa-título que abre os caminhos, traz uma melancolia sobre Porto Alegre e nos dá a sensação de um vôo panorâmico pela capital gaúcha, criando um mosaico de vivências na cidade. Mas as ênfases das letras são os causos do campo, a história e o folclore do Rio Grande do Sul. Causo Farrapo ilustra bem: Caramurus vejo sempre / Na ponta da minha espada / A Morte só volto a ver / Se a guerra tiver terminada.Há ainda citações de Simões Lopes Neto em No Manantiale a lúdica Noite de São João (Vitor Ramil/Fernando Pessoa).
Como o próprio nome identifica, as 11 faixas são em sua maioria milongas com arranjos puros e de bom gosto, de autoria do próprio Vitor. Milonga das Sete Cidades e Milonga, esta última uma musicalização de poema do folclore uruguaio, têm em sua instrumentalização tabla, sitar, percussão, harmonium, vina, baixo acústico, violões de aço e nylon, assim como a maioria das outras composições. Destaque também para Gaudério (Vitor Ramil/João da Cunha Vargas), com versos como Não quero morrer de doença / Nem com a vela na mão / Eu quero guasquear no chão / Com um balaço bem na testa / E que seja em dia de festa / De carreira ou marcação, acompanhados somente por uma instigante linha de contrabaixo acústico executada por Nico Assumpção.
Mesmo sendo gravado e mixado em pleno verão do Rio de Janeiro, por mais contraditório que possa parecer, Ramilonga – A Estética do Frio é um inventário musical contemporâneo dos símbolos e peculiaridades do Rio Grande do Sul. Guaiacas, palas, relhos, Farrapos, espadas, chinas, bolichos, pingos, carpetas, índios, pagos, estão retratados num excelente álbum de música regional, marco da carreira de uma artista de Pelotas que sempre priorizou uma criação autêntica, seja em trabalhos com foco em nossas raízes ou mais urbanos. Vitor Ramil ainda publicou o livro A Estética do Frio, uma identificação para quem teve o pampa como referência e ponto de partida para o mundo.
E a trotezito no mais / Fui aumentando a distância / Deixar o rancho da infância / Coberto pela neblina. (Deixando o Pago – Vitor Ramil/João da Cunha Vargas).
Coloco para tocar o disco de estréia dos Locomotores e recebo uma enxurrada de agradáveis surpresas. A julgar pelo currículo dos cinco integrantes, todos veteranos de bandas como Black Soul, Cachorro Grande, Malvados Azuis, Supervelhas e TNT, o resultado da inesperada agremiação poderia soar franksteiniano ou beirar o déjà vu. Bobagem, homem de pouca fé! O som do quinteto é genuíno, autêntico, sem paralelo na cena roqueira atual.
Em canções como o hit Nessa vida, a divertida O gato, a balada Tudo o que eu queria, a sombria Será que ela... e a orgiástica polka-rock A festa (todas compostas pelo baixista Jerônimo “Bocudo” Lima), percebo que não é à toa que o primeiro sucesso da Cachorro Grande foi justamente uma canção de autoria de Bocudo (Sexperienced).
Segundo compositor com mais canções no disco, o vocalista Maurício “Fuzzo” Chaise é talvez a maior revelação da banda. Conhecido há alguns anos no underground porto-alegrense como exímio intérprete de Beatles e integrante da extinta Malvados Azuis, Chaise se revela um versátil compositor. Desde a alucinada Máscara de ar até a positivamente pop Meu bem, passando pela dylaniana Compositor, o hino boêmio Midofuzzo e a crônica freak-adolescente Vermelha, o que ouço é rock de primeira grandeza acompanhado por letras com forte poder visual, transitando entre a ironia e o sarcasmo. Enfim, versos dignos de um poeta.
O tecladista Luciano Leães também mostra seu lado compositor em Ontem, Hoje e Mais uma noite, esta cantada por ele mesmo. O guitarrista Márcio Petracco e o baterista Alexandre “Papel” Loureiro apresentam seu trabalho autoral na criação coletiva de Linha reta, um rockaço cantado em coro, lembrando a sonoridade da banda setentista O Terço.
No contexto do rock rio-grandense, os Locomotores retomam de certa forma o caminho aberto pelo Bicho da Seda, fazendo um rock direto, básico, com melodias bem trabalhadas e passagens viajantes, sem cair no psicodélico ou se render à tendência atual das bandas mods. Enfim, é puro rock’n’roll. E desde que o rock é rock, rock é rock mesmo.
Ao desligar o som, após a audição do disco, sinto vontade de arranjar uma máquina do tempo e me transportar dez anos à frente, para curtir em seqüência toda a discografia da banda. De fato, o potencial da banda é imenso e, com certeza, seus próximos trabalhos enriquecerão sobremaneira a história da nossa música. Vida longa aos Locomotores!
Uma invenção bagunçada, assim se apresentam os Subtropicais; Samba rock, não; samba e rock. Samba, sim, mas não aquele alegrinho das rodas de pagode sob o sol escaldante dos trópicos. Rock, também, mas não o rock do fog inglês, tão badalado em dias de hype, mas rock subtropical, onde o minuano gela a alma.
Em seu CD de estréia, Temporal no Céu da Boca, os Subtropicais dizem a que vieram com muita personalidade. A banda existe desde 2000 e vem refinando sua mistura, aprimorando sua massa, para só agora tirar do forno essa iguaria, requintada desde o encarte (que vira um pôster quando totalmente aberto, mostrando criatividade num formato de mídia quase em extinção), passando pela produção cuidadosa de Marcelo Fruet e Iuri Freiberger, até a poética das letras, quase sempre em primeira pessoa. Aos poucos a bagunça vai se organizando, se revelando, mostrando o colorido sob pesados casacos de lã.
Difícil classificar a sonoridade da banda. Ouvir os Subtropicais é perder-se por Porto Alegre com uma taça de vinho na mão. E nada mais universal do que cantar seu próprio torrão. Está tudo ali, a chuva na cara, a eletricidade, o cinema e até o M’boitatá. Essa coisa de gostar de Piazzolla, Jorge Ben e James Brown, a poesia de Borges e Quintana, o dia azul de inverno e a noite quente de verão.
Com dois percussionistas, dois guitarristas e uma competente cozinha, a parede sonora dos Subtropicais é compacta, não existem espaços vazios. As guitarras rápidas e distorcidas convivem harmoniosamente com surdos e agogôs de uma maneira incrivelmente equilibrada.
Não perca tempo tentando classificar a banda com antigos rótulos de farmácia, o melhor mesmo é embarcar nessa viagem sem idéias pré-concebidas e deixar-se surpreender a cada faixa do disco, seja nos grooves de Temporal e da autobiográfica Subtropical, na psicodelia de Vem a noite e Sebastião ou na subtropicalíssima Nada de mim.
Tava ouvindo dia desses alguns CDs que por um motivo ou outro ficam no fundo do armário e peguei o d’Os Argonautas, banda instrumental do final dos anos 90. Me veio então uma vontade de falar sobre esse som, dessa tradição que temos de boas bandas de música instrumental, Raiz de Pedra, Cheiro de Vida, Relógios de Frederico, Pata de Elefante e por aí vai.
A banda surgiu em 1997 e à Surf Music clássica juntou toques de milonga, música andina e oriental, samba e aquela pitada típica dos roqueiros gaúchos. Após duas demo-tapes, participações em coletânea e trilha de vídeo, que já apontavam as influências de Dick Dale, The Ventures e Beach Boys, lança seu primeiro CD em 1999 com a seguinte formação: Régis Sam no baixo, Rodrigo Rosa na percussão, Marcelo Moreira, guitarras e violão, e Gustavo Dreher na flauta e violão. Aliás, a rapaziada se revezou em vários instrumentos agregando timbre de teclado, cavaquinho, charango, mais as baterias de Vilson Picco e Paula Nozzari. Outras participações como as de Alexandre Ograndi, Ivan Lettelier, Plato Divorak e Tomas Dreher emprestam ao cd um caráter de trabalho coletivo de primeira.
Com as influências citadas acima o disco navega pelos bons clichês da Surf Music, guitarras cheias de reverber (invencionice de Dale, considerado o pai do estilo) e vai além, misturando influências gerais em arranjos bem bolados, execuções certeiras e um ar de décadas passadas. O guitarrista Marcelo Moreira chegou a ser considerado por Herbert Vianna como um dos grandes do Brasil, depois de um show daqueles no Bar Ocidente. Destaque para Soñadora, que abre os trabalhos, Milonda Astronauttilos, meio pampeana, O Baião e Luciana, com toques de ritmos brasileiros (mais samplers d’Os Demônios da Garoa).
O cd foi lançado pelo selo Gens, do batalhador Fernando Nazer. Dei uma ligada pra ele e perguntei do CD. Foram lançadas mil unidades, todas vendidas. A página da banda ainda funciona – http://osargonautas.sites.uol.com.br – mas infelizmente os mp3 não estão disponíveis.
O novo disco de Karine Cunha, Epahei!, confirma seu talento como cantora, letrista e melodista, presente no trabalho anterior, Fluída, e registra a incursão da compositora pelo universo dos afro-sambas. A unidade sonora do CD, que conta com a participação de dez músicos convidados e passeia por diversos estilos, é garantida pela percussão e pelo violão do também produtor Marcos Bonilha.
Em canções como Canto de Ogun, Iê Mãe Já e Roda de Obá, Karine mergulha no universo dos orixás com letras e melodias que, ainda que não intencionalmente, remetem ao trabalho desenvolvido por Vinicius de Moraes e Baden Powell no disco Os Afro-Sambas, de 1966. O timbre firme e suave da voz da cantora e os minuciosos arranjos de violão de Bonilha conduzem a viagem a um mundo igualmente místico e profano.
As sonoridades pampeanas, presentes no disco anterior, aparecem nos temas Milonga do chegar e Fascínio de Luna, esta um chamamé estilizado com letra em espanhol, contrabaixo acústico e oboé, tocados por Aninha Freire e Javier Balbinder respectivamente. Em Milonga do Chegar, o violoncelo de Pedro Huff empresta à canção a atmosfera das imensidões, própria das paisagens do pampa.
Outro acerto do disco é a musicalização de poemas de Alan Mendonça, Mário Quintana e Sérgio Napp. A linguagem e a temática dessas poesias casam tão bem com as letras de autoria de Karine que temos a impressão de que foram escritos pela mesma pessoa. Posta lado a lado com esses grandes poetas, Karine se destaca como poetisa, não deixando nada a desejar.
Enquanto em Por gentileza Mendonça diz “Vem mesmo de brincadeira / Enquanto ensaio outra carreira / Mesmo para dizer suavemente / Um adeus por entre os dentes / Ou quem sabe numa outra vida / Que essa já se foi tão ligeira”, Karine se banha na sonoridade das palavras ao cantar Viração: “Vira latas / Vira vira / Violetas no jardim / Virtuosa variação / Viração que virá enfim”.
Ainda na temática do amor, Karine soma os versos da canção Ameaça (Dispenso o sol / Adivinha quem vai me dourar / Destilo segredos pra embriagar / Fabrico veneno pra paixão durar / Tudo isso é muito mais que uma ameaça) à amargura lúdica de Mário Quintana (Se tu me amas, ama-me baixinho / Não o grites de cima dos telhados / Deixa em paz os passarinhos / Deixa em paz a mim!) e Sérgio Napp (Quando saíres de mim / Leva teus castelos / Deixa tuas sombras / Quando saíres enfim / Leva fotografias / Livros, quadros, discos também / Gavetas quero vazias / Vais feito ninguém).
Pela beleza acrescentada ao disco, merecem destaque os arranjos de flauta (Vinicius Prates), trompas (Israel Oliveira), violino (Paula Bujes), além dos já citados violoncelo (Pedro Huff), oboé (Javier Balbinder) e contrabaixo acústico (Aninha Freire). O CD tem ainda a participação especial de Pingo e Zé Evandro, do grupo Serrote Preto.
O que Mário Bárbara, Nico Nicolaiewsky, Silvio Marques, Chaminé, Kledir Ramil, Cláudio Levitan, Fernando “Pezão”, Bebeco Garcia tem em comum além de serem grandes músicos? E o que xote, tango, bolero, violino, guitarra, charango, bumbo leguero e acordeon tem a ver com uma ave pernalta que habita lagoas ou lugares alagadiços?
Pois lá pelos idos de 1982, um grupo de pessoas e suas mentes em festa juntaram tudo isso e muito mais no famoso estúdio da ISAEC, em Porto Alegre, e gravaram um dos discos mais clássicos da música gaúcha, o Saracura.
Oficialmente o Saracura era Nico Nicolaiewsky, Sílvio Marques, Chaminé e Fernando Pezão, mas participaram da gravação do único registro da banda, todos os citados acima, e outros tantos, fazendo do Saracura uma verdadeira incubadora cultural.
O LP Saracura traz oito canções, todas impecáveis. O lado A inicia com Xote da amizade, com letra de Mário Bárbara, que também nos presenteia com a faixa 3, Bolero lero, e foi parceria constante em diversos shows do grupo. Claro que a faixa 1 é um xote (e o acordeon de Nico não deixa negar), mas um criativo violino duelando ao fundo com uma guitarra e um coro de vozes fazendo “Oh Yeah!” dão o tom da mistura que há de vir e permanecer por todo o disco.
A segunda música é um tango escrachado e debochado escrito por Cláudio Levitan, o Tango da mãe, que, embora em tom de brincadeira, já solta pequenas farpas ao vento, como nos versos “Como dói ser mamãe, dar de leite pro menino, pra depois ele morrer na alienação”. Na seqüência o Bolero lero inicia com um solo de guitarra em clima de Santana, com direito a congas e Silvio Marques dando uma de amante latino, sofrendo e chorando.
Fechando o lado temos outro xote, Xote de Jaguarão, onde Kledir Ramil conta a invasão dos castelhanos à cidade de Jaguarão e a reação imediata da população que botou os castelhanos pra correr. Como dizem os versos, “fica essa canção pra cutucar”. E cutucando no meio da música a melodia se transforma num jazz com solo de sax e bateria marcada. Nos últimos versos muda outra vez, virando um poderoso rock com coral ao fundo e guitarra cortante.
Viramos o disco e o cutuco é mais embaixo. Marcou bobeira não tem meias palavras: “quem leva medo fica, perde tempo, perde a vida e não vê nada” ou “pra mim basta, você já era”. Com arranjo primoroso e vocal inspirado de Nico, a canção atemporal não passa despercebida, nem o ouvinte fica incólume.
A segunda faixa segue num clima mais intimista, com destaque para o cello de Túlio da OSPA, que com a bateria de Pezão cria um clima de sonho pra Silvio Marques cantar “toda moça tem vontade de ser mulher de madrugada”. Com direito a um solo final da guitarra de Bebeco Garcia. Uma Obra.
A viagem continua com a belíssima Flor, que mistura o piano de Nico com instrumentos de cordas andinos e bumbo legüero, criando um equilíbrio impressionante entre a delicadeza da poesia e a força e grandiosidade da música latino-americana. Criatividade e beleza.
Fechamos o disco com Nada Mais, de Cláudio Levitan. Outra vez a ironia (“Se eu disser que não te quero tanto, só o suficiente pra te agüentar”) deixa o clima um tanto pesado e, o que começou alegre e debochado, termina com um sentimento mais sombrio, uma gota de pessimismo, ou talvez o mesmo sentimento de uma velha milonga cantada ao pôr do sol em alguma tapera da fronteira por um velho gaiteiro.
Embora o Saracura tenha se desfeito e nos deixado apenas essa pérola registrada, a maioria desses músicos fabulosos segue na ativa, produzindo, tocando, inventando e se reinventando. O LP Saracura é um marco na discografia da música gaúcha e pedra fundamental para se entender um pouco do que rola hoje e de onde saiu tantas coisas boas que temos ao nosso redor.
Ainda é possível encontrar em alguns bons sebos de discos esse LP, pelo menos em Porto Alegre. Mas se você não andar pelas ruas da flor lilás, ou mesmo não tiver um toca-discos (que agora também chamam-se pick-ups), procure pela internet, troque e-mails com amigos, ou pergunte ao Deus Google sobre Saracura, Nico Nicolaiewsky, Mário Barbará, etc.. Boa Sorte!
Fruet e os Cozinheiros - O Som do Fim ou Tanto Faz
Marcelo Fruet joga dados há muito tempo. Joga em diversas bandas, como a Groove James, joga em seu próprio estúdio, o Estúdio 12, criando trilhas sonoras, produzindo e participando de discos de inúmeros artistas. Agora Fruet junta-se aos Cozinheiros Leonardo "Brawl" Marquez (baixo), André Lucciano (bateria) e Nícolas Spolidoro (guitarra) para uma nova partida.
Com um trabalho gráfico primoroso, que lembra a arte de Dave McKean nas capas do clássico Sandman de Neil Gaiman, Everson Lazari envolve o CD numa embalagem que, quando montada, se transforma num cubo. Um dado com uma imagem e o título de uma música em cada face.
O disco mistura elementos eletrônicos com violões, experimentalismo e poesia na primeira pessoa. Uma obra cuidadosa, lapidada, onde percebe-se claramente a mão do Fruet produtor. O tempero dos Cozinheiros engrossa o caldo, servindo-nos diferentes pratos. Um banquete para ser digerido com calma, mas sem regras de etiqueta.
Montamos o nosso cubo e vamos ao jogo:
Que se faz? Uma balada pop, romântica sem ser piegas. A batida do violão introduz um riff de guitarra, que se repete no decorrer da música. Refrão magnético. A dinâmica cresce e, quando nos damos conta, já estamos cantando.
Outra balada é a música que fecha o CD, O som do fim ou tanto faz. Música calma, para escutar de olhos fechados, cheia de detalhes e surpresas, como a oração indígena que se ouve no início. "Temo já ter perdido a fé", diz a letra, mas nós não perdemos nada; jogamos o dado outra vez.
Vamos para Todo o tempo. A poesia fala de insegurança, não de uma insegurança juvenil que se transforma com o passar do tempo, mas sim de um medo constante de não se permitir. O título da canção é lembrado na melodia, que se repete, transformando-se a todo instante. O inesperado vai nos cercando numa atmosfera cheia de efeitos. É a música mais experimental do CD. Mas não pense em algo tipo Bjork ou Tom Zé; ouça Fruet e os Cozinheiros esbanjarem originalidade.
Gira o cubo do destino e encontramos Me despluguei. Melodia calma e fluída, na qual se sobressai a voz de Fruet com versos do calibre de "Honestamente, mente, não sente, fixe-se em pé / Repare sua rotina, não aceite tudo que é". Pare, escute e pense.
Próxima jogada, um tempero diferente. Samba da conexão, com direito a cuíca, tocada por Sassá, e auxílio luxuoso da flauta de Mateus Mapa. Ao contrário do que diz o release da banda no site da TRAMA VIRTUAL , que informa que a música de Fruet não é feita para dançar, pode afastar o sofá, porque só se não for brasileiro nessa hora.
Última jogada, El mariacchi. Outra vez o violão inicia a música, que logo se transforma numa belíssima levada pop. Destaque para a excelente linha de baixo de “Brawl”. Aumente o volume, calibre os graves e caia cantando.
Em todo o cardápio de Fruet o constante é a qualidade, seja quando flerta com o pop, seja quando se arrisca em experimentos. Jamais exagera. A sabedoria acumulada pelo produtor dá a esta concisa obra uma vastidão de sentimentos e possibilidades.
Sem convite de gravadora desde 2002, quando lançou o elogiadíssimo CD Carteio da Vida, Telmo de Lima Freitas parte para o esquema independente. Com produção da filha Ana Elisa Freitas e do genro Cristiano Scherer, além da participação dos netos Carolina Freitas Scherer e João Francisco Freitas Scherer, o novo disco, Aparte, registra pela primeira vez o encontro de Telmo com o filho Kiko Freitas, baterista de renome internacional. Ao clima de confraternização familiar juntam-se antigos parceiros de Telmo, como Luís Carlos Borges (gaita), Joãozinho Índio (violão) e Paulinho Pires (serrote).
O reconhecido talento do compositor se reafirma em onze novas canções. Falando das lidas diárias do gaúcho de hoje e de ontem, contando a história de homens que cruzou pelo caminho em suas andanças Rio Grande adentro, Telmo abre a gaita e esbanja poesia, ponteando no violão a memória da cultura de nosso Estado. Somam-se às novas composições antigos sucessos como Esquilador, Alambrado de Cordas, Tempos de Praça e Nesga de Noite.
Gravado entre junho e julho de 2006, o CD é disparado o mais bem arranjado, gravado e produzido de sua carreira. Desde a pesquisa realizada por Kiko Freitas para temperar as canções com instrumentos percussivos originais de diferentes culturas (do ganzá africano ao derbac oriental, passando pelo obrigatório bombo leguero pampeano), até as fotografias que ilustram o encarte de 14 páginas, tudo denota cuidado e perfeccionismo.
Definitivamente, não se trata de mais um CD na discografia, mas um álbum para ser ouvido e estudado por todos aqueles que se interessam pelo tradicionalismo e pela boa música em geral.
Uma grande surpresa chegou aos meus ouvidos ainda no fim do ano passado. Tratava-se do disco de estréia da banda portoalegrense Pública: Polaris. Acompanhei um pouco das mixagens e algumas gravações durante mais de ano, por estar trabalhando no mesmo estúdio por coincidência. Pois quando a bolacha saiu fiquei surpreendido. Canções!Muitas e belas canções. Letras que falam de nostalgias, amores perdidos, viagens lisérgicas e existencialistas, amizades e até um pouco de esperança.
Com forte influência de rock inglês, Polaris traça um paralelo entre a música intimista das regiões de baixas temperaturas nos dois hemisférios do planeta. A banda não poupou esforços na busca de timbres fiéis e orgânicos. Foram utilizados inclusive o piano e o teatro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) na gravação. O grosso do material foi captado num sítio em Três Coroas (RS) durante uma temporada de dedicação e esmero. A produção musical ficou a cargo de Marcelo Fruet, que já realizou trabalhos para várias bandas da “nova” geração da música sulista como Zumbira e os Palmares, Os Subtropicais, Proveitosa Prática, Da Guedes, Chimarruts, Groove James, entre outros.
A Pública também tem o cuidado de ilustrar suas músicas com belos videoclipes. Já são três somente para o primeiro disco: a trip de àcido “Bicicleta”, a sombria e intimista faixa-título “Polaris”, com lindas imagens em estações de metrô e cenários urbanos soturnos, e o elogiado vídeo de “Long Plays”. Este último, além de servir de alicerce para o quinteto ter sido indicado ao VMB 2007 (categoria Aposta MTV), realça de forma sublime uma das mais belas composições do álbum, uma aula de auto estima e de como dar a volta por cima quando se toma um pé na bunda, com direito a passeata de mendigos unidos pela amizade, sem ligar para os altos e baixos que a vida amorosa proporciona. Com belos vocais, riffs e solos de guitarras consistentes, os integrantes Pedro (guitarra e vocais), Guri (guitarra e vocais), Guilherme (contrabaixo), Amaro (piano e vocais) e Cachaça (bateria) conseguiram concretizar uma bela obra, tudo com muito suor e esforço que todas bandas independentes despejam diariamente mundo afora. Outras faixas de destaque são “Precipício”, “Tempo”, “Lugar Qualquer” e “Sobre a Estrada”.
Apesar de Polaris ter sido lançado no ano passado, 2007 está sendo o ano em que as coisas estão acontecendo para a Pública, que já participou de festivais e se apresentou em diversos estados brasileiros. Polaris chegou ao mercado pelo selo paulistano Mondo77, que trabalha também com os conterrâneos Walverdes, e é um competente cartão de visitas e indicativo de que muitas coisas boas virão por aí... Compre o disco, veja os clipes e vá ao show!
Com o lay-out dos antigos compactos de vinil, inclusive com os sulcos em baixo-relevo, a idéia do CD é divulgar o trabalho como faziam as gravadoras nos tempos do vinil. Na época, os compactos (com duas músicas) serviam para divulgar os LPs (geralmente com doze canções). Da mesma forma, o projeto com.pacto.triplo (com seis composições de Cláudio Levitan) pretende abrir caminho para o futuro LP (Longa Peregrinação), que está em fase de gravação. Antes do lançamento do LP, deve sair um segundo "compacto triplo”, provisoriamente intitulado O Outro Lado B.
Com dois CDs premiados com o troféu Açorianos – O Primeiro Disco (1997) e Minha Longa Milonga (2000) – o compositor ataca de “band leader”, abraçando o rock’n’roll com propriedade. Marcou bobeira, segunda faixa, é rock para não deixar nenhuma cabeleira parada, no melhor estilo Beatles. A épica Alma do povo é o encontro perfeito do espírito heróico do rock com o sangue guerreiro dos pampas. A belíssima balada Nada mais, gravada nos anos oitenta pelo grupo Saracura, recebe agora a emocionada interpretação de seu compositor, dando-lhe um gostinho de coisa recém saída do forno.
Acompanhado de Os Tripulantes (Alexandre Kumpinski nas guitarras, Carina Levitan na bateria e Leonardo Brawl no baixo), o músico, arquiteto, escritor e ilustrador, antes que algum aventureiro o faça, rotula sua sonoridade como “rock de raiz aérea”. O CD traz também as participações de Julio Rizzo (trombone), Francine Mello e Kiko Ferraz (backing vocals).
Definir o que é samba-rock não é nada fácil, tamanha a quantidade de diferentes gatos que se pode colocar nesse balaio. Facilitando nossa vida e aproveitando para incrementar ainda mais a diversidade, Zumbira e os Palmares invertem o ponto de vista e lançam o CD RockSamba. Tão ecléticos quanto o gênero permite, alçam vôo sem crise de identidade e sem tropeçar em clichês.
No quilombo de Zumbira todas as tribos são bem-vindas. Desde que venham para dançar. Com muito swing e apelo pop, além de letras inteligentes (coisa rara no cenário pop atual), a banda convida a sacudir corpo e alma do início ao fim do disco. A propósito, quem deixar o disco rolar até o fim, terá uma agradável surpresa na faixa escondida: a participação de um convidado muito especial.
As letras têm conteúdo, dão o recado, não têm laiá-laiá, não tem choro meu bem. “Trabalho e honestidade é o jeito que escolhi para viver”, diz a letra de Despertador. E essa postura perpassa todo o CD. Versos como “queria colocar um pouco de poesia na tua vida” e “caridade é dar o que tu gostarias de ganhar, talvez seja dar até o que você não tem, mas amor nós todos temos”, sintetizam o espírito da banda.
A excelente voz de Zumbira (que ainda toca violão e guitarra), com o baixo de Cristian Badino, a bateria de André Lucciano, a percussão de Rodrigo Mindo, as guitarras de Guilherme Schallm e os backings e percussão de Rodrigo Muralha, coloca todo mundo para dançar, evocando por vezes o mestre Jorge Ben ou flertando com o rap-funk, como na politizada Ordens para seguir. Outro grande momento, No puedo, parece o encontro de Erasmo Carlos com Santana. Cozinha temperada ao gosto caribenho e guitarra chorona encarnam a mais pura alma latina, alma essa que o Brasil insiste em renegar, mas que Zumbira incorpora com maestria e reverência.
Como a deslumbrada Carmem Miranda da capa do CD, não basta colocar um cacho de banana na cabeça e um piercing na língua para chamar a atenção. Talento é ainda imprescindível. E isso tem de sobra no tabuleiro da banda.