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CARTA ABERTA À COMUNIDADE ARTÍSTICA DE PORTO ALEGRE
Provavelmente grande parte dos músicos de Porto Alegre saiba que há dois anos tive um problema cardíaco e fui removido de ambulância da Coordenação para o Pronto Socorro. Naquela ocasião, após completa bateria de exames, ficou constatado que a minha forma física era perfeita. Certamente pela prática de esportes desde a infância (judô, karatê, natação e futebol) minha condição cárdio-respiratória é acima da média para a minha idade. Porém havia um probleminha que eu até então desconhecia: numa pequena enervação responsável pelas descargas elétricas que dão ritmo ao coração tenho uma deformidade congênita e isto faz com que, em casos de estresse extremo e sob intensa produção de adrenalina, se dê uma arritmia. Desde então tenho tido cuidados e estado sob observação médica. Nos últimos três meses tive dois episódios semelhantes, apesar de bem menos intensos que o primeiro. Os médicos aconselharam-me a ficar de repouso e diminuir o meu ritmo de trabalho. Bem, a Coordenação de Música de Porto Alegre não comporta uma redução do ritmo de trabalho por parte do seu titular. É um órgão ativo demais e requer dedicação exclusiva e integral do Coordenador. Então sou obrigado a comunicar a todos que, a partir do dia 31 de dezembro de 2007 deixarei a titularidade da Coordenação de Música.
Nestes três anos em que tive a honra de servir à cidade dentro da minha área profissional no setor público aprendi muito mais do que eu imaginava. Algumas ações foram plenas de êxito como a recuperação da Banda Municipal que tem hoje uma proposta de reformulação de seu plano de carreira, que está gravando e em breve lançará o seu belíssimo CD, além de ter participado com destaque de eventos de grande importância e criado o "Encontrabanda", projeto consagrado e gerador de toda esta transformação; o projeto Sons da Cidade colocou dezenas de grupos musicais importantes no palco do Renascença; a parceria com o Sindicato dos Músicos Profissionais do RS apresentou mais de quinhentos músicos no Centro Municipal de Cultura e rendeu um disco histórico, o "Nós da Noite"; o "24 horas de Cultura" cobriu a cidade de música entre as diversas outras atividades; o Festival de Inverno foi um sucesso fantástico; o novo formato da cerimônia de entrega do Prêmio Açorianos deu agilidade ao evento permitindo que ele fosse televisionado ao vivo, visto que, para isto, ele precisava ficar abaixo de duas horas de duração. Conseguimos e ainda inserimos a Banda Municipal para executar ao vivo as vinhetas de acesso. Nem tudo, é claro, são flores. O Festival de Música de Porto Alegre, por exemplo, ainda precisa de uma reformatação que o oxigene e o faça crescer. Nele introduzimos algumas novidades como uma premiação compatível com os demais festivais do estado, a gravação ao vivo do CD durante as finais (o que o torna um documento histórico), a criação da "fase dois", onde os vencedores da fase regional encontram os músicos consagrados. Mas ainda falta uma solução definitiva para o formato da fase 1, e isto terá de ser debatido com os próprios músicos, uma tarefa do próximo Coordenador, que aliás, terá o meu apoio, foi por mim indicado e aceito consensualmente pelos Secretários e pelo Prefeito. Trata-se do competentíssimo Jorge André Brites músico, produtor, cineasta que já dirigiu gravadoras e rádios.
Também passei pela tristeza de ver a interdição do Auditório Araújo Vianna por razões de segurança. Na verdade, a SMOV com base na análise da engenharia alertou para a gravidade do risco e não havia outra atitude a tomar por parte do gestor público. Depois de muitos estudos (e até batalhas judiciais) o Secretário da Cultura encontrou uma solução, ao meu ver, satisfatória, que se baseia na Parceria Público Privada mas propõe um modelo inovador de gestão compartilhada. Pena que não estarei ali para o início e conclusão das obras de restauração, mas ficarei feliz quando puder ver de volta em funcionamento o palco onde estreei como profissional há 30 anos passados.
Preciso agradecer a colaboração de pessoas muito especiais como o Maestro Nadruz, Jorjão e equipe, funcionários da Coordenação e dos teatros do município, Coordenadores companheiros de muitas batalhas, músicos da Banda Municipal, pessoal da Casa Torelli com quem aprendi muito (não é mesmo doutores Moreira e Martha?), enfim todos aqueles que compartilharam generosamente comigo o seu saber e a sua boa vontade.
É fundamental destacar ainda, que o Secretário Sérgius Gonzaga e a Secretária Adjunta Ana Fagundes são dois surpreendentes dínamos capazes de impulsionar coisas que a primeira vista parecem impossíveis. Não tenho palavras para expressar a minha admiração por eles, mas se há algo maior do que esta admiração, é o sólido elo de amizade que se formou entre nós e sei, indissolúvel para o resto de nossas vidas.
Para finalizar, quero agradecer ao Prefeito Fogaça pela confiança que depositou em mim. Trabalhei para todos os governos estaduais e municipais nos últimos 20 anos sempre por razões técnicas, nunca políticas, mas esta foi a primeira vez que um governante conduziu-me diretamente ao Executivo. Lembro-me que, ao convidar-me, Fogaça exprimiu sua intenção de não envolver a Cultura em questões partidárias. De fato, a quase totalidade de seus indicados na SMC o foi por razão técnica e não política, inclusive eu e os Secretários Sérgius e Ana, todos sem nenhuma vinculação partidária. Eu poderia dizer que há o componente da nossa amizade sincera nisto tudo, mas Fogaça é por demais profissional para agir movido apenas por este critério. Ele é um dos artistas que pertencem ao patamar mais elevado da história da nossa cultura. É, também, um dos políticos da estirpe histórica do Rio Grande Sul que, tais como Getúlio Vargas, Pedro Simon, Tarso Genro, Leonel Brisola, Loureiro da Silva e tantos outros grandes vultos, deram ao nosso Estado esta marca diferenciada de se fazer política com probidade, seriedade, honestidade e competência independentemente da ideologia professada. Espero ter correspondido às expectativas dele e sinto muitíssimo não poder, por razões de saúde, concluir com ele este mandato na condição de componente titular de sua equipe. Mas estarei a disposição dele e de Porto Alegre agora e sempre para dar minha contribuição seja como artista, seja como produtor executivo, enquanto eu tiver forças para isto. A convite do Secretário e do Prefeito, permanecerei ligado à produção executiva de quatro grandes eventos: Baile da Cidade, Festival de Inverno, 24 horas de Cultura e Prêmio Açorianos de Música. Nestes apoiarei o novo Coordenador em suas ações desejando-lhe sucesso e felicidade.
Obrigado a todos, e que Porto Alegre seja sempre a nossa mãe querida, nossa filha amada e razão do nosso orgulho.
Henrique Mann
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